Vivendo pela Fé – Parte I

“Eis que vêm os dias, diz o Senhor Deus, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Andarão errantes de mar a mar, e do norte até o oriente; correrão por toda parte, buscando a palavra do Senhor, e não a acharão” (Amos 8.11-12).

Muitos cristãos de forma sincera têm buscado seguir os ensinos de Cristo através dos séculos, porém, eles têm encontrado grandes barreiras para viver em santidade e vencer o pecado em suas vidas enquanto tentam tomar cada um sua cruz negando a si mesmo. Há momentos em que a vida cristã parece mais uma vida impossível do que a vida gloriosa descrita nas Escrituras. Muitas vezes fracassamos tentando compreender realmente o que significa a vida cristã. Deste modo, nunca chegaremos a compreender a vida de fé no novo pacto da graça. Acabamos assim caindo no estilo de vida do Antigo Testamento, em vez de entender os princípios da nova vida em Cristo. Isto é mais fácil de acontecer do que possamos perceber em um primeiro momento porque sempre existe uma tensão entre a relação do pacto no Antigo Testamento e no Novo Testamento.

Em 2 Coríntios 3.6 lemos que o novo pacto é a obra do Espírito que traz vida, enquanto o Antigo Testamento estava fundamentado na letra que traz morte. Se caminhamos de acordo com a letra dos mandamentos da lei de Deus, inclusive no Novo Testamento, ela continuará nos trazendo morte. Somente ao vivermos pela fé com o Espírito Santo nos dirigindo e guiando é que entraremos na “vida de Cristo” porque O Espírito escreverá a lei dos mandamentos de Deus nos nossos corações (Hebreus 10.16, veja também Jeremias 31.33) e viveremos conforme a plenitude do plano de Deus.

Desde a ressurreição e ascensão de Cristo, o Pai enviou o Espírito Santo sobre o povo de Deus. Nossa vida, como a família escolhida de Deus, pode ser mais gloriosa que aquela que temos visto nos santos do Antigo Testamento. Portanto, você precisa compreender que se vive uma vida de condenação, depressão e tristeza dia sim e dia não, possivelmente seja porque você está tentando viver sobre os princípios do antigo Pacto (2 Cor. 3.9), tentando ganhar o favor de Deus e seguir os mandamentos na sua própria força.

Há duas coisas que observamos claramente na vida de Jesus, nosso Mestre: sua total dependência do Pai e o poder do Espírito Santo. A Trindade presente na vida de Cristo. Nós, como comunidade cristã, estamos chamados a viver esta mesma realidade. Como? Os cristãos são chamados, primeiro de tudo, a serem discípulos de Cristo, em outras palavras, formar nossas vidas seguindo o estilo de vida de Jesus que está fundamentado nos ensinos das Escrituras. Isto é possível porque temos sido reconciliados com o Pai pela morte de Cristo na Cruz e agora podemos ter plena comunhão com Deus e viver em plena dependência dEle, recebendo vida plena pelo poder do Espírito Santo. Deste modo, não temos que tentar ganhar o favor de Deus, porque a graça de Deus já tem feito isso por nós.

Isso foi exatamente o que Adão não percebeu quando não exerceu sua autoridade sobre a criação e decidiu seguir seu próprio entendimento. Assim, tomou do fruto proibido do bem e do mal ao invés da vida (Gênesis 2.9). Nunca fez sentido para mim o porque Adão preferiu tomar o fruto do conhecimento ao invés de comer da árvore da vida; possivelmente porque não valorizava o suficiente a relação e intimidade que tinha com Deus. Ele desejava ser como Deus. O mesmo pecado que cometeu Satanás e os anjos que o seguiram quando se rebelou contra Deus. Adão desejava ter o conhecimento nele em vez de depender de Deus para recebe-lo.

Hoje em dia observamos o mesmo problema na vida dos discípulos de Cristo. Tentamos ganhar conhecimento em vez de depender dEle. Não estou falando que não seja importante crescer no conhecimento e na Verdade, evidentemente é importante, o problema é quando achamos que somente isso nos fará melhores cristãos. A vida em Cristo é o que nos leva a ter intimidade com a Trindade.

O conhecimento surge a partir dessa comunhão relacional (pactual) entre o povo escolhido, a Igreja e Deus. De outro modo esquecemos o ensino do rei Salomão quando escreveu, “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.”(Provérbios 3:5-6). Exatamente a falta de conhecimento é o que leva a perdição ao povo de Deus, como lemos em Oséias 4:6

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porquanto rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.”

Os homens não rejeitam o conhecimento per se (em si mesmo), rejeitam o conhecimento que vem de Deus, buscando seu próprio conhecimento e entendimento. Isto termina causando inumeráveis conflitos existenciais, quando não são também familiares, bélicos ou sociais.

O grande pecado da humanidade tem sido viver longe de Deus em vez de viver na dependência total de Deus. O homem tem escolhido viver para ele mesmo separando-se de Deus a tal ponto, pelo pecado original que, ainda se agora desejassem buscar a Deus não seria possível sem a obra perfeita de Deus que enviou a Igreja para ser um farol na noite obscura.

Infelizmente muitos cristãos continuam vivendo suas vidas longe de Deus, sem depender dEle e sem intimidade com o Pai; por esta razão acabam frustrados e desanimados na vida cristã. E tentam preencher o vazio com outras coisas que, ainda sendo boas, não fazem sentido se não fluem a partir de uma verdadeira comunhão na presença de Deus.

Todas as religiões ensinam aos seus seguidores a fazer o bem e fugir do mal. Os cristãos que desejam viver vidas agradáveis a Deus também desejam fazer o bem e fugir da maldade. O problema é quando isto é um fim em si mesmo. A busca da santidade surge da relação que temos com o Pai mediante o Filho pelo poder do Espírito Santo. É aí que surge a capacidade de agradar a Deus em perfeição, já que é o próprio Espírito que escreve os Mandamentos nos nossos corações e quem faz possível obedecer aos mesmos. Aqueles que tentam fazer pelas suas próprias forças e conhecimento do bem e mal acabam desenvolvendo mais e mais distinções desnecessárias entre o bem e o mal, através de várias regras e costumes. Deste modo os cristãos acabam perdendo a liberdade que têm recebido em Cristo. Sem mencionar que existe um alto risco de cair no mesmo espírito (pensamento) que os fariseus da época de Jesus. O triste paradoxo é que acabam nunca chegando a genuína vida santificada porque eles tentam chegar pelas boas obras e não pela fé.

Por 1500 anos Deus ensinou aos judeus sobre a Lei, o que era bom e aquilo que era mau. Porém, a obediência às boas obras não levaram a vida eterna de nenhum judeu mesmo quando a obediência a Lei era uma ordenança de Deus. Viver seguindo uma série de regras e regulações, ainda que sejam a própria lei de Deus, não leva a ser uma pessoa aprovada por Deus. Isso não quer dizer que devemos ignorar os Mandamentos de Deus; pelo contrário, é impossível ignorar aquilo que está escrito no coração pelo Espírito. A lei mostra nossa fragilidade e urgente necessidade de Deus. A verdadeira santidade não se encontra somente em seguir regras e estipulações, mas é fruto da obra completa do Espírito em nós.

Em outras palavras, a santidade verdadeira é a vida de Deus sendo vivida cada dia e Deus é o único que pode nos dar tal vida e permitir que este dom seja vivido constantemente. Nunca seremos capazes de obter tal coisa, ainda que tentemos. Só se recebe pela fé e continua sendo vivenciado pela íntima comunhão na presença de Deus. Deste modo o Fruto do Espírito nos leva a obediência dos Grandes Mandamentos de Deus.

O apóstolo Paulo diz que ele, desconhecedor das demandas da lei, se sentia vivo. Porém, quando compreendeu as demandas da Lei de Deus, percebeu os pecados em sua vida sentindo-se morto.

“E outrora eu vivia sem a lei; mas assim que veio o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri…”(Romanos 7.9)

Esta é a experiência de muitos cristãos quando enfrentam a realidade da sua própria existência. Eles se sentem vivos e felizes enquanto somente escutam mensagens de bênçãos, promessas e as grandes coisas que Deus tem feito na história. Inclusive, sentem paz quando escutam sobre o perdão de Deus. Porém, se escutam pregações sobre o pecado e a importância de obedecer os mandamentos da lei de Deus, se sentem condenados e miseráveis e a vida cristã parece estar morta.

Isso porque se tem uma compreensão do evangelho somente parcial. Paulo não parou com a lei, tampouco nós devemos. Deus mostrou a Paulo a plenitude da lei, a lei do Espírito que é  a vida plena em Cristo. Este entendimento ajudou a compreender que ele era livre do pecado e da morte.

“Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte”(Romanos 8.2).

Muitos tentam chegar à santidade fazendo coisas boas e sendo boas pessoas, tentando ganhar a aprovação de Deus. Muitas pessoas hoje em dia tentam viver de acordo a Lei, cometendo o mesmo erro que Eva no jardim de Éden. Eva não comeu da fruta proibida porque desejava ser como Satanás, mas porque desejava ser como Deus, pois essa foi a promessa que recebeu da serpente (Gênesis 3.5). As pessoas pensam que podem ser como Deus se realizam boas obras. Inclusive acreditam que podem chegar a ser tão bons como Jesus Cristo, o único sem pecado. Assim, repetem o mesmo pecado de Adão e Eva.

Em muitas ocasiões as boas obras que realizamos na vida não são fruto da busca pela genuína santidade, mas, como resultado da educação recebida em família. Do mesmo modo muitas coisas que acabamos não realizando, não são fruto de buscar a maldade, mas, por não termos sido educados nestas coisas. Isto mostra que existe uma falta de fome e sede por Deus. Muitos cristãos passam suas vidas acumulando conhecimento da Bíblia, porém, sem viver as verdades aprendidas de Deus. Diante deste fato, a vida destes não é muito diferente daqueles que são boas pessoas, ainda que não sejam cristãos. Todos estes cristãos têm esquecido um aspecto fundamental do evangelho: somos novas criaturas em Cristo Jesus. Já não somos mais pecadores, ainda quando pecamos, mas santos. Nossa identidade não se encontra naquilo que fazemos, mas em quem somos em Cristo.

Josep Rossello

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