Unidade entre Justificação e Santificação

“…mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.” — I Coríntios 6:11

Essa justiça, portanto, é dada aos homens no batismo e sempre que eles verdadeiramente se arrependem.” — Martinho Lutero, Sermão sobre dois tipos de justiça

A doutrina da justificação é central para a compreensão da natureza e propósitos da Reforma Protestante. Tal doutrina não apenas sinaliza diferenças cruciais entre o catolicismo tridentino e o protestantismo, como também diferenças — não inconciliáveis, talvez — dentro do próprio protestantismo, entre Lutero e Calvino, entre as tradições que os seguiram, e sobre as quais penso que cada lado acertou e errou em alguma medida. Pois a doutrina da justificação não é sem ambigüidades e dificuldades, que refletem a unidade com que justificação e santificação aparecem nas Sagradas Escrituras. O uno é descrito com mais dificuldade que o múltiplo.

Enquanto a tradição reformada acertou em observar o testemunho apostólico em favor da justificação final segundo as obras (leia aqui), a tradição luterana acertou em ver a justificação como algo a ser continuamente recebido, e não de uma vez por todas, realidade indicada pela a autoridade apostólica para absolver pecados (Jo. 20:23) bem como a promessa do perdão para os confessantes e arrependidos (Tg. 4:8-10; 1Jo. 1:9).

Nesse sentido, pode-se inferir com facilidade, em linha com o Sermão sobre os dois tipos de justiça, que, embora não se possa perder a justificação de pecados antigos, recebida no Batismo — do contrário, não haveria perdão real —, precisamos da justificação, pela fé, de novos pecados, dependente do Batismo mas não meramente resultante dele. As boas obras teriam aqui um propósito indireto de não serem pecados; pois quando se pode fazer o bem, não há meio termo entre boa obra e pecado (Tg. 4:17). A linguagem de mérito não tem nenhuma função a desempenhar. Ainda assim, a santificação preservaria o estado da graça batismal, deixando-nos cada vez mais próximos dele. Se guardamos os mandamentos, permanecemos no amor (Jo. 15:10).

A unidade entre santificação e justificação é vista em Romanos 6:6-7, texto batismal que Calvino comenta e com acerto reconhece um significado especial: justificação como libertação da escravidão.

Rm. 6:5-7,17-18: Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado [dedikaiōtai apo tēs hamartias]. Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado [eleutherōthentes apo tēs hamartias], fostes feitos servos da justiça.

Em outras palavras: não há nenhum hiato entre ser justificado do pecado e ser feito (por Deus, passivo divino) servo da justiça. Trata-se de uma só e mesma operação de Deus em nós, ainda que se a possa distingüir em dois momentos. Calvino observa a unidade entre a justificação e a santificação como uma mesma graça, contida em Cristo inseparavelmente. Mais do que isso, ele corretamente aponta para o lugar onde essas duas graças estão inseparavelmente unidas: o próprio Cristo!

Institutas 3.16.1: Logo, Cristo a ninguém justifica, a quem, ao mesmo tempo, não santifique. Ora, estas mercês são ligadas por vínculo perpétuo e indivisível, de modo que aqueles a quem ilumina com sua sabedoria, os redime; aqueles a quem redime, os justifica; aqueles a quem justifica, os santifica. Entretanto, uma vez que a questão é apenas acerca da justiça e da santificação, insistamos nelas. Ainda que entre elas façamos distinção, contudo Cristo contém ambas inseparavelmente nele.

Assim, embora a teologia sistemática reformada, temendo o erro semipelagiano de conceber a graça salvadora como um resultado de nossas obras (facere quod in se est), tenha preferido distinguir na graça salvadora a dimensão instantânea (justificação, extra nos) da progressiva (santificação, in nobis) — de maneira não tão diferente da distinção entre o dom instantâneo da iustificatio impii (ST Ia-IIae q.113 a.7) e o dom progressivo da caridade (ST Ia-IIae q.24 a.7) na Suma Teológica —, é certo que as Escrituras sempre tratam do mistério multiforme da salvação a partir da unidade de Cristo.

Pois em Cristo o extra nos e o in nobis se confundem numa mesma realidade. O Cristo que nos salva não está “fora de nós”, mas “em nós”, e em nós ele é a esperança da glória. O Cristo inteiro é nossa salvação, e não apenas parte dele. Cristo não apenas é nossa justificação, mas também nossa santificação. A unidade da salvação é a unidade de Cristo. Disso depende a unidade da Igreja.

G. M. Brasilino

FONTE: VINEADEI

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