Um Discernimento Cristão Sobre o Aborto

Sem dúvida este é um dos temais mais complexos da atualidade ante as diversas vertentes e argumentos que são apresentados favoráveis a essa prática.

Porém, com a honestidade e clareza que lemos da Palavra de Deus, vemos que não há compatibilidade dessa prática a nenhum dos valores do Evangelho de Cristo. E é justamente esta a intenção deste artigo: oferecer pontos de reflexões e entendimento que nos levam a concluir que, como cristãos, não aceitarmos o aborto em HIPÓTESE NENHUMA.

Vamos aos pontos:

1º Não Matarás (Êxodo 20:13)- Há quem defenda a tese de que criança não nascida não pode ser considerada ser vivente. Cientificamente, este conceito não tem base suficiente para suportar a ideia do aborto, uma vez que a própria ciência testifica que a diferença entre um óvulo fecundado e um ser humano adulto é o tempo de nutrição e a quantidade de células. Embora não nascido, há um ser vivo no ventre da mãe. Em aproximadamente 12 semanas de gestação, a maioria dos órgãos vitais já estão formados no feto. Impossível negar a existência de um ser humano ali. 1

Um argumento comum sobre matar, que é o fato da Bíblia apresentar diversas guerras e mortes ao longo de sua narrativa. Bem sabemos que isso é verdade. Porém, em todos os contextos bíblicos que apresentam um homicídio que seja justificado, tem a ver com o exercício da justiça e não com a matança deliberada e desenfreada.

Temos um exemplo claro disso em Números 35:27

“e o vingador da vítima o encontrar fora da cidade, ele poderá matar o acusado sem ser culpado de assassinato.”

Tem a ver com sentença de morte como consequência de um erro, e não de um homicídio deliberado e sem razões. Da mesma forma, encontramos esta realidade em Romanos no capítulo 13, acerca das autoridades que utilizam da espada, que obviamente são direcionadas a punir aquele que infringe a lei, e não matar deliberadamente quem não tenha feito nada.

Enfim, o aborto, face ao que expomos até aqui, é HOMICÍDIO, ou seja, PECADO.

2º A Vida É Algo Que Só Deus Pode Criar: Somente Deus pode dar origem à vida! Por uma lógica quase que simplista, podemos concluir que não está no homem definir o fim da mesma.

Porém, mais do que mera percepção e dedução lógica, temos na Bíblia alguns versículos que colocam em evidência o cuidado de Deus em um processo de gestação, e a certeza que estes que ainda não nasceram são vistos por Deus também. Vejamos:

“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. (Salmos 139:13.)”.

 

O Salmista aborda que dentro do ventre materno, Deus cuida e forma a criança que está por nascer. O texto evidencia que há uma vida sendo cuidada pelo próprio Deus. Temos uma passagem interessantíssima no livro de Jó, quando ele argumenta questões de injustiças relacionadas aos seus servos, em referências a tempos de antes do nascimento deles, como podemos ler:

“Aquele que me formou no ventre não o fez também a ele? Ou não nos formou do mesmo modo na madre?” (Jó 31:15)

 

Ou seja, Jó sabia que antes de nascer, ele e seus empregados foram cuidados por Deus no ventre. Está mais do que evidente que a origem da vida e o processamento de nascimento são tratados por Deus de forma direta. Torno a dizer que estas são evidências absolutas que não está no homem definir o fim da vida de forma tão arbitrária quanto o aborto.

Claramente, a ciência nos mostrou a gama de possibilidades dentro de um processo de fecundação, inseminação e etc., e bem sabemos que um homem e uma mulher podem ser doadores de espermatozoides e de óvulos. Mas, o cuidado da formação no ventre com o objetivo de formar uma pessoa com características únicas, é, sem dúvida, obra exclusiva de Deus.

Derramando sangue inocente: Derramar sangue inocente sempre foi algo condenável na Bíblia.

“E derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e de suas filhas que sacrificaram aos ídolos de Canaã; e a terra foi manchada com sangue.” (Salmos 106:38).

Não tenho dúvida que o sangue de uma criança que ainda está no ventre é inocente. É um ser que ainda não tem capacidade de reação. Embora seja um ser vivo e com características individuais, ainda no ventre, ele está em formação que depende dos cuidados da mãe. É um ato covarde atentar com um ser indefeso, e não há nenhum versículo sequer que possa ser usado para cometer um ato tão desprezível.

Mas e em caso de Estupro? Se a vítima conceber e engravidar? – Esse é um caso bem complicado de lidar, pois somente a vítima do estupro é que sabe o tamanho da dor por conta de um abuso tão terrível. Porém, a criança que é fruto deste ato também é inocente. E aqui entra uma questão muito delicada.

Um erro pode ser justificado com outro? Evidentemente que não. A mãe, vítima do estupro, então é obrigada a criar a criança? Entendo que não, pois ela pode esperar a criança nascer e entregar a criança para adoção. Mas nada, nem mesmo o caso de um estupro, nos dá o direito de acabar com uma vida inocente.

Na ambiente cristão e vivência pastoral, conheci e acompanhei de perto um caso de uma mulher que foi vítima de estupro, e decidiu criar a criança. Depois de dez anos pude ouvir desta mãe “Apesar do trauma, eu agradeço a Deus pelo sofrimento, pois depois deste, eu aprendi a amar e ser mãe, e poder ajudar no processo de gestação, é uma dádiva.”

Também conheci casos de mães que doaram seus filhos para doação, e que não conseguiram conviver e suportar com a distância e culpa que carregavam pelo fato da inocência da criança. Claramente não quero diminuir e nem minimizar a realidade da vida de uma pessoa que sofre esse tipo de crime. Porém, a Bíblia nos ensina algo relevante até sobre as adversidades e sofrimentos que vivenciamos:

“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)

5º E crianças que nascem sem cérebro, ou com anomalias irreversíveis?  Também fazem parte do sangue inocente. Se há uma vida, um corpo incompleto ou com deficiências, há vida. E esta vida foi vista e cuidada por Deus no processo de gestação também. Portanto, atentar contra esta vida, é pecado.

6º E em casos em que há risco de morte da mãe ou da criança no trabalho de parto? Este ponto, sem dúvida, é o mais complexo de todos. Como escolher com sabedoria quem deve ficar vivo ou quem deve morrer? Como devemos agir diante de uma situação dessa?

É algo que passa por uma gama imensurável de valores morais e pessoais. Valores que vão nortear uma decisão marcante na vida de todos os envolvidos. Neste caso, não há decisão menos relevante. O que deve ser feito então? Orar muito, e após muita reflexão decidir. Essa decisão é algo que creio ser particular para cada caso, conforme o Senhor orientar após a oração.

Uma realidade implícita é que dificilmente os pais não optariam por deixar o filho viver. Não há consequência fácil para lidar em qualquer seja a decisão que for tomada neste caso.

Conheço caso de uma família que optou em salvar a vida do filho, e neste caso, a mãe veio a falecer. Claro que o pai cuida muito bem do filho, mas é impossível negar que a vida deste homem foi devastada, por mais que ele tenha a consciência de que era a única opção plausível a ele. A felicidade de ver o filho crescer é muito grande, mas não sobrepõe as lembranças do sacrifício que a mãe fez para que o filho vivesse.

Também acompanhei um caso em que os pais, após um período de oração, decidiram por não salvar o bebê. Entenderam que o filho teria graves sequelas em relação ao parto, e optaram por deixar o bebê em segundo plano. Após esse processo, esse casal teve dois filhos. Mas carregam até a hoje a culpa de ter feito a opção de deixar o primeiro filho morrer. Eles entendem o lado racional de que o sacrifício poderia custar a vida dos dois. Mas isso não impede de se sentirem culpados, embora tenham chegado à conclusão após a oração.

Sem dúvida que este é um caso muito complexo, e que deve ser tratado com muita oração e discernimento, com esta consciência da consequência “menos grave”.

Este artigo não esgota o assunto nem as possibilidades que são debatidas sobre o mesmo, mas concluo que não há respaldo bíblico que possa validar a prática do aborto.

Que o Senhor nos dê discernimento e entendimento para tratar casos como esses, e nos conduza a decisões acertadas, se porventura viermos a passar por tais adversidades.

Em Cristo.

Marco Cicco

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