Trapo de Imundícia ou Linho Fino-

“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.” (Isaías 64:6)

“Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.” (Apocalipse 19:7-8)

Na interpretação evangélica popular de Is. 64:6, ocorre um erro bastante comum, que é o de atribuir a esse texto uma abrangência universal: o “nossas” de Isaías se torna o “nossas” do leitor e do restante da humanidade, de modo que toda as nossas boas obras (“justiças”) passam a ser vistas como más, sujas, imundas, pecaminosas. Trapo de imundícia são os panos sujos que cobrem coisas que, pela lei mosaica, são julgadas como imundas, como a pele dos leprosos.

Essa imagem contrasta com a de Ap. 19:7-8: as justiças (ta dikaiōmata) dos santos são o linho finíssimo, resplandecente e puro, no qual se veste a esposa do Cordeiro, Cristo. Não se pode imaginar que esse mesmo linho fino e puro seja ao mesmo tempo trapo de imundícia. É verdade que Is. 64:6 é uma símile e Ap. 19:7-8 é uma alegoria, e que elas não estão no mesmo contexto. No entanto, elas contém juízos implícitos sobre a justiça pessoal: na primeira, rejeição das obras; na segunda, aprovação. Ademais, pouco antes, o próprio livro de Isaías apresenta um juízo profético de aprovação da justiça dos israelitas: “As nações verão a tua justiça” (Is. 62:2).

Na realidade, trata-se de uma interpretação incorreta de Is. 64:6, ignorando o contexto. Esse versículo é parte de uma oração de confissão coletiva de pecados que se inicia em Is. 63:7 e segue até o final do c. 64. Tendo primeiramente sido objeto da misericórdia e bondade de Deus (63:7-9), o povo israelita foi rebelde e, por isso, castigado (63:40), e, embora tenha se lembrado dos tempos antigos (63:11-14), a misericórdia de Deus não se fez novamente presente (63:15ss), o povo passou a viver fora do Reino de Deus (63:19), e até o Templo de Jerusalém foi destruído (64:11, pós-exílico).

A oração do terceiro Isaías é uma confissão em busca do retorno da presença de Deus como nos tempos antigos, em espírito muito semelhante àquela de Dn. 9. Não se trata, portanto, de uma declaração teológica sobre a natureza humana ou sobre as obras humanas, mas sim uma confissão por aquilo que o povo israelita havia feito. As justiças deles, naquele momento, eram como trapos de imundícia.

Ao contrário, como afirmam as confissões reformadas, nossas boas obras são aceitáveis na misericórdia divina e agradáveis a Deus; não é isso que diz justamente Hb. 13:16? Por que esse texto nos diz que devemos praticar o bem e compartilhar, sendo tais sacrifícios agradáveis a Deus? Sendo nossos sacrifícios agradáveis a Deus, temos um estímulo para perseverar neles. Ao contrário, dizer que nossas boas obras são trapos de imundícia é uma forma de desestimulá-las. Por que continuar fazendo o que é sujo, imundo? Se não agrada a Deus, por que deveria agradar a nós?

Mas mais do que isso, um tipo de juízo como esse impede uma consciência genuína dos nossos pecados, que só existem quando nossas boas e más obras, assim como bons e maus pensamentos e sentimentos, são comparáveis entre si, quando existe proporção. Se dizemos que nossa justiça, por melhor que seja, é trapo de imundícia, nivelamos todas as coisas e sua força se torna opaca, nós nos tornamos surdos para a intensidade de cada coisa. Sendo assim, jamais nascerá em nós a virtude genuína da humildade, que envolve um juízo adequado de quem nós somos. Se todos vemos a mesma imagem no espelho, uma imagem imposta, nunca vemos a nós mesmos como realmente somos. Mas a verdadeira humildade só existe quando existe auto-conhecimento; do contrário, é só fantasia, é falsa humildade. Aliás, não pode haver verdadeira humildade se eu acho que a justiça de outras pessoas também é trapo de imundícia.

É claro que embora a abrangência de Is. 64:6 não seja universal, sua relevância certamente é (2Tm. 3:16). Como o terceiro Isaías, em algum momento nós chegamos à conclusão de que nossas obras realmente são trapos de imundícia. Mas não devem continuar assim, e o caminho é a confissão e o arrependimento, trocando os trapos de imundícia pelos panos de saco.

G. M. Brasilino

Blog do Autor: Vinea Dei

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