Saia da Caverna

Não é difícil de ouvir, ainda nos tempos hodiernos, alguns afirmarem generalizadamente que a teologia é um perigo para o cristão. Seria esta uma afirmação correta? ou apenas medo do desconhecido? Ou ainda uma cultura apática em relação aos estudos? estas perguntas podem ser respondidas com uma breve análise do homem na caverna de Platão.

A alegoria da caverna de Platão retrata, como é a percepção de mundo por alguém que a vida inteira conheceu apenas sombras de animais e pessoas aparecendo no fundo da caverna. Por nunca conhecerem o mundo fora da caverna, estes não possuem conhecimento do real, apenas reflexos da realidade. Acorrentados e obrigados a olhar apenas para o fundo da caverna, acreditavam na existência autônoma das sombras projetadas na parede.

O Autor Grego continua dizendo que se imaginássemos que um destes prisioneiros fosse liberto, este iria ficar cego de luz por causa do fogo que outrora nunca viu. Pois a vida toda conheceu apenas os efeitos do fogo de projetar sombras na parede. E mesmo que contemplasse a beleza do mundo real, não conseguiria convencer seus amigos, pois pensariam que estivesse louco, preferindo eles o cômodo sossego da escuridão. Pois aprender é processo doloroso. Sócrates bem afirmava que ele ajudava as pessoas a dar à luz ao conhecimento, chamando isto de Maiêutica (parto), em homenagem a sua mãe Fainarete que era parteira.

Alguns no evangelho vivem exatamente como a alegoria da caverna. Aprendem uma “verdade” que não condiz com a realidade, e esta passa a ser sua visão de mundo. Acorrentados pelo medo, afirmam contra o conhecimento. Fazem da teologia uma espécie de bode expiatório, incutindo em seus ouvintes todo tipo de alegação difamatória como por exemplo: “teologia apaga o fervor espiritual”; “não estude isso, pois você ficará louco”; “deixou de orar depois que virou teólogo”; “não fala mais línguas estranhas”; “fica na teolog(ia), e ia orar, ia pra igreja, e ia para o céu”. Quem já ouviu algo assim? Difícil de aceitar estes ataques quando olhamos para a Bíblia e ela mesma é um objeto de estudo.

R.C. Sproul fala algo que concordo. Afirma que teologia é um assunto intimamente ligado a Deus. É além de entender religião; quem estuda teologia é por NECESSIDADE DE ENTENDER A FÉ CRISTÃ. Portanto, quem critica teologia, é o mesmo que dizer: prefiro minha religião, minhas crenças infundadas e não mudarei. Na Bíblia há exortações que orientam o zelo no estudo e também exemplos de personagens que usaram o conhecimento para contribuir diretamente no evangelho, como Lucas, quando escreve para Teófilo o que poderíamos chamar na atualidade de pesquisa de campo. Lucas 1:1-4 diz: “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado MINUNCIOSAMENTE de tudo desde o princípio; para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado.” Sem o objetivo de esgotar o tema, permita-me apresentar outro exemplo. Paulo esteve aos pés de Gamaliel, em Atos 22:3 diz: “Quanto a mim, sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e nesta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zelador de Deus, como todos vós hoje sois.” Quem era Gamaliel? Respondo; um doutor na lei. Sim! Paulo estudou e muito. Posso inferir que o conhecimento ajudou Paulo a ser um estrategista na exposição do evangelho.

Estudar as Sagradas Letras não é capricho, muito pelo contrário, é por obediência e sobrevivência. Oséias 4:6 diz: “porque meu povo se perde por falta de conhecimento; por teres rejeitado a instrução, excluir-te-ei de meu sacerdócio; já que esqueceste a lei de teu Deus, também eu me esquecerei dos teus filhos.” No novo testamento Paulo orienta a Timóteo em 2Tm. 2:15 “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” É fato conclusivo que manejar bem a palavra requer empreendimento intelectual.

Sair da caverna implica em ser questionador. Infelizmente muitos já estão confortáveis com sombras, de tal forma, que ser questionador se tornou mácula. Estamos na era do conhecimento e ainda assim alguns religiosos precisam entender que a verdade pode ser aquela que não ensinam. “Ovelhas” levadas pela inocência, preguiça ou medo, dão poderes a tiranos que tem dominado a área “gospel” e manipulando as massas de manobras que facilmente se curvam.  Fé não é fideísmo, temos razões suficientes para crer em Deus, isto implica sim em ser questionador, estudioso e curioso, sabendo que na medida em que aprendemos verdades de fato sobre Deus, podemos expressar com orgulho o porquê servimos a Ele.

por: Wesley Stefani Fernandes

Write a comment:

*

Your email address will not be published.

© 2016 Evangelho Inegociável | porAgente Host.
Topo
Siga-nos:             
error: Content is protected !!