Os Primeiros Esforços Reformados no Brasil

BRASIL OUTROS 500: OS PRIMEIROS ESFORÇOS REFORMADOS NO BRASIL

Rev. Jorge Aquino

– Palestra proferida na reunião do CLAI, Rio de Janeiro, em 2000 –

No estudo dos acontecimentos históricos precisamos evitar a tentação de pecar por emitir julgamentos anacrônicos. Isto significa que não é correto julgar o que ocorreu no século XVI usando a legislação vigente no século XXI. Há uma máxima no direito que diz que a lei não retroage para punir. Seríamos injustos se assim o fizéssemos. Neste trabalho, portanto, respeitamos os condicionamentos mentais e culturais daqueles acerca de quem falamos.

No estudo da história precisamos compreender que nem tudo o que se diz de fato ocorreu como se diz. A história sempre foi e será sempre feita pelos vencedores, que apresentam a sua versão e que a tornam hegemônica, e porque não dizer, totalitária. O historiador, no entanto, precisa tentar buscar e ouvir também os perdedores.

Este trabalho é a tentativa de dar voz aos que nunca são ouvidos, aos vencidos, aos perdedores da história. Aqueles que foram ingênuos, mas que também tiveram o sonho de encontrar nestas terras do Brasil um lugar de paz, de liberdade e de prosperidade.

Neste pouco tempo que temos, gostaríamos de apresentar a saga dos protestantes franceses e holandeses, que aqui estiveram nos séculos XVI e XVII e que também sonharam com um lugar melhor para eles.

I. OS FRANCESES

O Primeiro contato entre a fé reformada e o Brasil ocorreu logo no início da Segunda metade do século XVI. Ele ocorreu graças ao desejo de Nicolau D. de Villegagnon em estabelecer uma colônia francesa nas terras do Brasil.

De acordo com Jean de Léry, um dos que participou da expedição calvinista para o Brasil, já em 1555, Villegagnon manifestava a “vários personagens notáveis do reino o desejo… não só de retirar-se para um país longínquo onde pudesse livremente servir a Deus, de acordo com o evangelho reformado, mas ainda preparar um refúgio para todos os que desejassem fugir às perseguições”.[1] Neste afã, Villegagnon partiu em maio de 1555 e chegou ao Brasil em Novembro do mesmo ano. Uma vez na bahia de Guanabara, iniciou a construção de um forte que oferecesse alguma proteção.

1. A PREPARAÇÃO DA EXPEDIÇÃO

Fingindo zelo cristão, o “Cain das Américas” como ficaria chamado, enviou emissários a Genebra com a finalidade de requisitar ministros religiosos para que o ajudassem na criação de uma comunidade reformada onde houvesse paz religiosa.

Ao ouvir dos planos de Villegagnon a igreja em Genebra se regozijou com a possibilidade de levar o Reino de Jesus Cristo a um país tão distante e a um povo que “ignorava inteiramente o verdadeiro Deus”.[2]

Depois de muita conversa e discussão do assunto, finalmente quatorze membros da comunidade reformada de Genebra, dentre os quais dois ministros, Pedro Richier, então com cinquenta anos, e Guilherme Chartier, partiram em direção ao Brasil no dia 16 de setembro de 1556.

2. A CHEGADA DA EXPEDIÇÃO

Do embarque, no porto de Honfleur, na Normandia, até a chegada ao Brasil, foram muitos meses de penosa espera e expectação, passando por muitos momentos de tormentas e de perigo.

A expedição chegou na Quarta-feira, dia 10 de março de 1557. Imediatamente depois da chegada, o ministro Richier promoveu o primeiro culto. Vejamos o que diz Jean de Léry: “Cantamos em coro o salmo V e o dito ministro, tomando por tema estas palavras do salmo XXVII: – ‘pedi ao Senhor uma coisa que ainda reclamarei e que é a de poder habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida’- fez a primeira prédica no forte Coligny, na América”.[3]

A primeira Santa Ceia celebrada no Brasil foi realizada no Domingo, 21 de março. Jean de Léry nos informa que os ministros prepararam com antecedência os que deveriam comungar. Entre eles existia um tal João Cointa, que como aparentava pouca convicção, foi convidado a fazer a confissão pública de sua fé antes de comungar, “o que fez, abjurando perante todos o papismo”.[4]

Depois do sermão, e antes da ceia, Villegagnon, segundo De Léry “aparentando zelo”, ficou de pé e pediu que todos os presentes que ainda não professavam a religião reformada saíssem, uma vez que ainda “não estavam aptas para assistir ao mistério da administração do pão e do vinho”.[5]

Jean de Léry passa então a descrever duas longas orações que Villegagnon fez durante o culto. Ao findar as orações ele “apresentou-se à mesa do Senhor e recebeu de joelhos o pão e o vinho da mão do ministro”. Ao final desta cena, nosso autor diz algo que preparará nosso espírito para o que vem a seguir. “Logo verificamos porém o justo conceito de um antigo escritor que dizia ser difícil simular a virtude por muito tempo, pois percebemos que nele havia apenas ostentação”.[6]

Até então Villegagnon parecia ter de fato um coração dedicado a fé reformada. Ele falava a todos de sua admiração para com João Calvino a quem considerava “um dos homens mais doutos que surgiram desde os apóstolos”. De fato ele afirmava que nunca havia lido ninguém que no seu entender “melhor e mais puramente tenha exposto e tratado as Santas Escrituras”.[7]

Tudo começou a mudar, de acordo com de Léry, por causa de algumas cartas recebidas de algumas pessoas, dentre os quais o cardeal de Lorena. De Léry nos diz, no entanto, que depois de seu regresso à França, ouvira dizer que antes mesmo de partir do país, Villegagnon já se aconselhava com o cardeal de Lorena, “ao mesmo tempo em que se mascarava com a religião reformada.”[8]

Villegagnon, logo após a Ceia de Pentecostes, declarou abertamente ter mudado de opinião sobre Calvino, declarando-o herege e transviado da fé. Daí em diante, restringiu os sermões a meia hora e passou a negligenciar os serviços religiosos.

Daí em diante, De Léry narra as atitudes selvagens deste homem para com os nativos e mesmo para com os seus. Torturas, acoites, aflições e até fome, tudo feito por alguém que se confessava cristão.

Depois de oito meses no forte Coligny, que ajudaram a construir, os protestantes se retiraram para o continente onde permaneceram por dois meses, esperando a vinda de uma nau francesa que vinha buscar pau-brasil.

Vencidas, portanto, todas as adversidades, Richier e a maioria dos seus companheiros voltaram para a Europa em Janeiro de 1558. Alguns poucos ficaram, amedrontados pela situação precária em que se encontrava o barco, e decidiram voltar à colônia onde Villegagnon, suspeitando uma armadilha, buscou um motivo para se desfazer deles.

3. O DESFECHO TRÁGICO

Tendo-os obrigado a redigir, num prazo de apenas doze horas, uma declaração relativa aos pontos doutrinários controvertidos, ele se mostrou surpreendentemente indignado diante do conteúdo calvinista da declaração (ela seria conhecida como Confessio Fluminensis) e, em decorrência disso, mandou assassinar três dos seus subscreventes a 9 de fevereiro de 1558.[9] “João du Bourdel, Mateus Vermeil e Pedro Bourdon se tornaram assim os primeiros mártires religiosos no Novo Mundo”.[10]Eis uma frase que, sendo escrita por autores católico-romanos, põe em xeque toda a argumentação daqueles que postulam a “canonização” dos católicos que foram massacrados em Cunhaú, como os pretensos “proto-mártires” do Brasil.

Um dos sobreviventes, André La-Fon, abjurou a fé reformada e foi poupado, o outro, Jacques Le Balleur, que não foi a colônia por Ter permanecido entre os nativos, e portanto escapou de todo este drama, morreria anos mais tarde enforcado em 1567 pelas mãos do Pe. José de Anchieta.[11]

II. OS HOLANDESES

Antes de iniciar o desenvolvimento deste novo momento de encontro entre a fé protestante e o Brasil, creio ser importante algumas palavras sobre o clima político e econômico que existia nas relações entre Holanda e Portugal.

O contexto político que nos interessa, tem início no século XV, quando os Países Baixos foram incorporados ao domínio de Espanha. O início do século XVI verá, Carlos V, que foi educado em Bruxelas, contender contra as doutrinas de Lutero e, finalmente reconhecer, em 1552 a igualdade política entre católicos e protestantes. Quando Felipe II assume o reino de Espanha, desenvolve uma política externa extremamente radical, onde todos os espaços dados à tolerância são fechados e onde a inquisição é instaurada. A nobreza flamenca, e protestante, reage e forma uma liga em 1564. Este será o início do movimento que levará à independência. Depois de muita luta com os holandeses, a Espanha estabelece uma trégua que duraria 12 nos (1609-1621) na qual reconheceria, de fato, a independência das Províncias Unidas da Holanda. No final deste período, e durante o reinado de Felipe IV (1621-1665) a Espanha reinicia a guerra contra a Holanda.

A situação econômica também é de extrema importância para se compreender aquele momento. A Holanda sempre teve uma boa relação econômica com Portugal, de quem comprava mercadorias orientais para revender aos europeus. Em troca disso, recebia dos portugueses sal, açúcar, pau-brasil e outros produtos das colônias. No entanto, com a subordinação de Portugal à Espanha em 1580 e com o estabelecimento da política repressiva de Felipe II contra a Holanda, a liberdade de comércio entre estes e os portugueses foi prejudicada. Além disso, Felipe II ordenou o confisco de todos os navios holandeses que estivessem nos portos de seus novos domínios na Europa, África, Ásia e América. Na prática os holandeses estavam fora do comércio com o resto do mundo. Foi neste contexto que os mercadores holandeses criaram duas empresas (Companhia das Índias Orientais e Ocidentais) com direito a firmar alianças e tratados comerciais.

1. A EXTENSÃO DO DOMÍNIO HOLANDÊS

A presença de holandeses no Brasil já vinha ocorrendo desde meados do século XVI, no entanto, com a completa impossibilidade de transações internacionais por causa do embargo econômico imposto por Portugal e Espanha, os holandeses fizeram eles próprios suas incursões em território brasileiro para suprir os Países Baixos dos gêneros já citados.

A colonização holandesa no nordeste durou de 1630 a 1654, boa parte dos quais sob a direção do conde João Maurício de Nassau-Siegen (1637-1644). Seu domínio atingiu temporariamente quase todo o litoral nordestino, compreendendo desde o Maranhão ao norte até o rio São Francisco ao sul.

A região mais importante seria a de Pernambuco, em função da existência da maioria das usinas de cana de açúcar do Brasil, ao passo que o Rio Grande (do Norte) até Maranhão contribuiria com o rebanho bovino e com a farinha de mandioca. Segundo Francisco Leonardo: “A história do Brasil Holandês pode ser dividida em três partes: inicialmente a resistência portuguesa por sete anos; depois a resignação desses “moradores” durante o governo do Conde Maurício de Nassau por quase oito anos (1637-1644); e finalmente os nove anos da guerra da restauração”. [12]

2. AS CARACTERÍSTICAS DO DOMÍNIO HOLANDÊS

Sem sobra de dúvida, uma das grandes marcas que caracterizariam o período de dominação holandesa no nordeste e particularmente em Pernambuco, pode ser identificada com as benfeitorias realizadas por Maurício de Nassau (particularmente) na cidade do Recife. Sua experiência nos Países Baixos o habilitaram a construir um sistema de esgotos que funciona até hoje e que representa algo de distinto, diante do caos que se torna o resto da cidade do Recife no período das chuvas.

Uma outra marca distinta do período holandês foi sem dúvida o avanço científico e tecnológico. Muitas novidades tecnológicas foram aplicadas às plantações de cana. Em um importante ensaio, Cristina Injosa nos informa que os holandeses trouxeram consigo da Europa, artistas, arquitetos e cientistas “como o astrônomo George MacGrave; o médico naturalista Willem Piso, pintores como Franz Post e Albert Eckout, o arquiteto Pieter Post e, aqui incorporando a outros também talentosos artistas e cientistas, voltou-se com audácia e sensibilidade para a construção da nova cidade – Maurícia”.[13]

Outra marca holandesa no Brasil foi a liberdade religiosa. No prefácio do texto “Tempos dos Flamengos”, o conhecido mestre Gilberto Freyre, cita um discurso de Joaquim Nabuco feito no parlamento do império do Brasil no qual o grande abolicionista diz que a Holanda trouxe para o Brasil dois princípios luminosos: a liberdade do comércio e a liberdade de consciência.[14]

Em um excelente trabalho sobre o Calvinismo Holandês e a liberdade religiosa no nordeste, o Professor Doutor Paulo D. Siepierski atribui justamente a esta liberdade de religião a causa do fracasso do domínio holandês no Brasil. Vejamos o que ele nos diz: “A hipótese central deste ensaio é que a relativa liberdade religiosa no Brasil holandês não foi um princípio mas uma conseqüência diante das circunstâncias, e que tal concessão eventualmente revelou-se fatal para o expansionismo holandês, pois este estava intimamente vinculado ao exclusivismo do calvinismo.”[15]

Esta tolerância religiosa era a única forma que o governo holandês dispunha para ganhar a benevolência da população portuguesa, o que, para alguns, deveria ser promovida como um bem em si mesmo. De fato, como diz o documento da CEHILA (Comissão Episcopal sobre a História da Igreja na América Latina), “Os católicos gozavam de liberdade para exercerem seu culto e manterem relações oficiais com a sede episcopal da Bahia. As sinagogas e escolas talmúdicas do Recife foram as primeiras que apareceram no Novo Mundo, e João Maurício fazia questão de proteger os judeus mesmo contra as reclamações da Igreja Reformada”.[16]

Ao lado da liberdade religiosa, os holandeses trouxeram também uma visão humanitária um pouco mais desenvolvida do que a dos portugueses. Segundo o texto da CEHILA, os holandeses contribuíram para que houvesse um melhor tratamento da questão dos escravos. Segundo este documento “Foi melhorada a legislação, de tal modo que, por exemplo, o negro escravo não mais podia mudar de dono sem que sua mulher o acompanhasse na transação”.[17]

Seguindo na mesma linha, Francisco Leonardo também nos informa de que também a semi-escravidão começou a ser combatida. Os diz este professor que “o governo lembrou aos fazendeiros em Alagoas, que índios somente podiam trabalhar nas lavouras se fosse de livre vontade, e somente com a devida remuneração. Dois anos depois o Recife insistiu que ninguém podia manter (em semi-escravidão) um brasiliano na sua casa, sem o consentimento dos capitães das aldeias.”[18]

A Igreja Reformada também ficou realmente interessada em apregoar o evangelho no Brasil, tanto entre os portugueses, quanto entre os brasilianos. Francisco Leonardo no dá conta de que, durante o período de dominação holandesa, o número de comunidades protestantes crescia em todas as cidades. Vejamos suas considerações: “Ao todo existiram durante algum tempo vinte e duas igrejas reformadas no Nordeste. Destas a do Recife era a maior, inclusive com uma congregação inglesa e uma francesa. Esta se reunia no ‘templo gálico’ onde o próprio Nassau era o membro mais ilustre, sob o pastorado do predicante espanhol Vincentius Soler. Com o aumento da conquista organizou-se uma ‘classe’, uma convenção eclesial, o Presbitério do Brasil, e durante alguns anos existiu até o Sínodo do Brasil, com dois presbitérios: o de Pernambuco e o da Paraíba”. [19]

Mas nos dá conta, também de que a maior parte da missão reformada em terras brasileiras estava voltada para a população indígena, que chegou a ter um catecismo reformado trilingüe. Depois da saída dos holandeses, sabe-se que muitos índios convertidos migraram para o interior fugindo das possíveis represálias impostas pelos portugueses aos que tinham recebido a fé protestante. Eles se reuniram no Ceará, em uma serra chamada de Ibiapaba e lá desenvolveram uma vida razoavelmente livre e autônoma da presença portuguesa. Há relatos de que esta vila era muito organizada. Francisco Leonardo nos informa de que “o padre jesuíta Antônio Vieira visitou a Serra de Ibiapaba ainda em 1654. Conforme ele, a região tinha se tornado uma verdadeira ‘Genebra de todos os sertões do Brasil’. A influência do ensino religioso havia sido mais profunda do que se imaginava à primeira vista. Os padres ficaram atônitos diante do traje fino dos indígenas, da arte de ler e escrever e especialmente do lado religioso, porque ‘muitos deles eram tão calvinistas e luteranos como se houvessem nascido na Inglaterra ou Alemanha’, considerando a igreja romana uma ‘igreja de moanga’, uma igreja falsa”.[20]

3. O FIM DO DOMÍNIO HOLANDÊS

Com o passar dos anos uma conjunção de fatores acabaram por contribuir contribuíram para a final retirada dos holandeses do Nordeste do Brasil. Em primeiro lugar, como ressalta Siepierski, a postura liberal quanto a religião acabou por possibilitar uma aglutinação dos portugueses em torno de um “bem simbólico” importante e significativo: a verdadeira religião. Com esta bandeira em mãos, seria possível aglutinar pessoas para a expulsão dos holandeses.

Este fator foi agravado com a possibilidade constante de articulação produzida pela cúpula que morava na Bahia. Através de Salvador vieram os reforços necessário para montar um ataque que resultasse na restauração das posições portuguesas em Pernambuco.

Não devemos desconsiderar também o fato de que os holandeses, por melhor que fossem, sempre seriam identificados com inimigos e invasores, e que eles também exerciam seus próprios tipos de exploração. Resumindo, uma forma de dominação não é melhor do que a outra em função das cores da bandeira da nação dominante. Com a saída de Maurício de Nassau, seus sucessores não foram tão estratégicos quanto ele no trato com os nativos brasilianos.

Os fatores econômicos também influenciaram e merecem ser citados aqui. Durante o momento de fortalecimento da resistência portuguesa houve uma queda na produção do açúcar no Brasil e um consequente aumento no preço da saca, o que o deixava fora do mercado se comparado com o açúcar das ilhas Antilhas. Ou seja, já não era um bom negócio investir aqui, logo a perda não seria muito grande.

Desde Tabocas (1645) até as batalhas dos Guararapes (1648 e 1649) as tropas luso-brasileiras foram assumindo posições importantes. Em 1653 Portugal resolveu enviar uma frota de apoio e a conjunção de todos este fatores acabaram por produzir a capitulação dos holandeses em 1654.

4. UMA PALAVRA SOBRE CUNHAÚ

O historiador Frans Leonard Schalkwijk, talvez a maior autoridade em nosso país sobre este período, escrevendo para a revista Ultimato (Mai-Jun 2000) muito acertadamente apresenta três considerações para todos os que afirmam que aquele massacre fora realizado por ordem do governo holandês e orientado por um pastor “calvinista”.

Em primeiro lugar devemos observar que não foi o governo holandês que ordenou a chacina. O que de fato ocorreu foi uma vingança dos índios em reação às notícias de que os portugueses, ao retomarem as posições dos holandeses, infligia cruel tortura e morte sobre os índios que cooperavam com eles. Como a revolta portuguesa já tinha começado (13/06/1645) os índios só tinham duas alternativas: ou se refugiavam nas proximidades das fortificações holandesas ou pegavam em armas. Foi o que aconteceu em Cunhaú. Um exemplo do ódio que os índios tinham contra os portugueses pode ser visto quando Nassau, ao conquistar o Ceará (1637), teve que proteger até com armas os portugueses dos índios que os queriam matar. Pelo que se sabe, afirma Frans Leonard Schalkwijk, “existe somente uma carta-tupi como resposta do regedor Poti a seu primo Felipe Camarão, do dia 31/10/1645, escrita talvez por coincidência, no dia da Reforma Protestante. Nessa carta, Poti afirma que os seus índios viviam em maior liberdade do que os outros, enfatizando que os portugueses queriam escraviza-los, prejudicando-os mais que os negros, matando-os na Baia da Traição. Lembrou também como André Vital, na rendição das forças holandesas de Sirinhaen matou cruelmente todos os 23 índios, apesar das condições da rendição, e que a matança de Cunhaú, por Antônio Paraupeba, era uma vingança” (SCHALKWIJK, 1986, p. 301). Ressalte-se que em 17 de agosto de 1645, em Casa Forte, houve mais um massacre de índios apesar das cláusulas das rendições.

Em segundo lugar, embora o nome de um pastor protestante esteja ligado a este episódio, ele de fato ocorre de modo exatamente contrário ao que se supõe. Não foi ele quem orientou o massacre, antes, como disse Frans Leonard ele “foi enviado pelo governo para refrear a selvageria dos silvícolas”.[21] Nos diz ainda o prof. Leonard que, no dia 25 de Julho, quando o governo holandês no Recife soube dos terríveis acontecimentos do Rio Grande do Norte, “enviou o Rev. Jodocus à Stetten, pastor ‘calvinista’ alemão, capelão do exército, com o capitão Willem Lamberts e sua tropa armada ‘para refrear os tapuias e trazê-los [para o Recife], a fim de poupar o país e os moradores [portugueses]”.[22]
Finalmente, importa saber o que foi feito de Jacob Rabe, o verdadeiro algoz de Cunhaú. Este homem, que servia como ligação entre os holandeses e os índios antropófagos (tapuias), e que havia recebido o pastor Jodocus de arma em punho, foi morto por ordem do próprio governador da capitania do Rio Grande do Norte, o capitão Joris Garntman, que era casado com uma senhora portuguesa que havia perdido muitos parentes em Cunhaú.

Assim como o professor Schalkwijk, também acreditamos que estes três fatos não “diminuem em nada o sofrimento destas vidas inocentes”, no entanto, talvez nos permitam compreender melhor aquele momento da história e quem sabe, desarmar aqueles que acusam sem conhecimento de causa.

Lamentavelmente é preciso reconhecer que houve um massacre, mas as razões jamais foram de natureza religiosa. Muito ao contrário, o desejo de vingança certamente se coaduna muito mais naturalmente como motivação para os gestos que foram ali perpetrados.

Referências bibliográficas:

CEHILA, História Geral da Igreja na América Latina Tomo II, Petrópolis, Vozes, 1977
DE MELLO, José Antônio Gonsalves. Tempo dos Flamengos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974
INJOSA, Cristina. Tempos dos Flamengos& Outros Tempos (Vários) Fundação Joaquim Nabuco/ Editora Massangana, Recife, 2000
Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980
REIS, Aníbal Pereira, O Santo que Anchieta Matou, São Paulo, Edições Caminho de Damasco, 1981
S/A. Os Mártires do Rio de Janeiro, México/ Buenos Aires, Casa Unida de Publicaciones/ Editorial e Libreria La Aurora, 1955
SCHALKWIJK, Frans Leonard. Igreja e estado no Brasil holandês: 1630-1654. Recife: FUNDARPE, 1986
SCHALKWIJK, Frans Leonard, Lágrimas de Cunhaú, Revista Ultimato Mai/Jun, 2000
SCHALKWIJK, Frans Leonard. Índios evangélicos no Brasil Holandês, Fides Reformata, Revista on-line
SIEPIERSKI, Paulo D. Calvinismo Holandês e Liberdade Religiosa, Revista Epistêmê, ano 01, Vol 01, nº 01, 1999

________________________________________
[1] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.53, 54
[2] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.55
[3] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.86
[4] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.90
[5] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.90
[6] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.94
[7] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.95
[8] Léry Jean de, Viagem à Terra do Brasil, Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1980, p.99

[9] Toda a cena da morte dos protomártires do protestantismo no Brasil, assim como a Confissão de Fé Fluminense, foi registrada por Jean Crispin em Actes des Martyrs (Genebra 1563), editado em edição bilingue com o título: Os Mártires do Rio de Janeiro, México/ Buenos Aires, Casa Unida de Publicaciones/ Editorial e Libreria La Aurora, 1955
[10] CEHILA, História Geral da Igreja na América Latina Tomo II, Petrópolis, Vozes, 1977, p.138
[11] Ver a descrição do enforcamento em: Reis, Aníbal Pereira, O Santo que Anchieta Matou, São Paulo, Edições Caminho de Damasco, 1981, p. 40
[12] Leonardo, Francisco. Índios evangélicos no Brasil Holandês, Fides reformata. Revista On-line
[13] Injosa, Cristina. Tempos dos Flamengos & Outros Tempos (Vários) Fundação Joaquim Nabuco/ Editora Massangana, Recife, 2000. p. 48
[14] “Prefácio” de Gilberto Freyre a José Antônio Gonsalves de Mello, Tempo dos Flamengos (Rio de Janeiro: José Olympio, 1974), p.11.
[15] Siepierski, Paulo D. Calvinismo Holandês e Liberdade Religiosa, Revista Epistêmê, ano 01, Vol 01, nº 01, 1999.
[16] CEHILA, História Geral da Igreja na América Latina Tomo II, Petrópolis, Vozes, 1977, p.139
[17] CEHILA, História Geral da Igreja na América Latina Tomo II, Petrópolis, Vozes, 1977, p.140
[18] Leonardo, Frnacisco. Índios evangélicos no Brasil Holandês, Fides Reformata, revista on-line
[19] Leonardo, Francisco. Índios evangélicos no Brasil Holandês, Fides Reformata, Revista on-line
[20] Leonardo, Francisco. Índios evangélicos no Brasil Holandês, Fides Reformata, Revista on-line
[21] Schalkwijk, Frans Leonard, Lágrimas de Cunhaú, Revista Ultimato Mai/Jun 2000, p.40
[22] Schalkwijk, Frans Leonard, Lágrimas de Cunhaú, Revista Ultimato Mai/Jun 2000, p.40

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