Orações Impedidas

“Então, chamarão ao SENHOR, mas não os ouvirá; antes, esconderá deles a sua face, naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras.” (Miquéias 3:4)

“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações.” (I Pedro 3:7)

Eu tenho um problema sério em ver, como algumas pessoas, um conflito entre a misericórdia e a justiça de Deus. Não consigo imaginar nada mais justo do que a misericórdia de Deus. É justo socorrer o necessitado, e essa é precisamente a definição de misericórdia. A confissão do Sl. 62:12 é exemplar: “A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.”

É certo que muitas vezes é bastante difícil ver a ligação entre a justiça e a misericórdia, especialmente quando se medita no mistério da salvação, quando a graça divina precede qualquer boa obra ou bom desejo de nossa parte, antes sendo ela responsável por tal bondade em nós. Também é certo que a administração da justiça divina inclui não apenas o perdão, mas também o juízo, a punição devida.

Mas tudo isso apenas mostra que punição e perdão estão em uma unidade. É o perdão de Deus que o torna temível (Sl. 130:4). Dada a simplicidade divina, todos os atributos de Deus no fim das contas são o mesmo atributo, a Sua excelsa divindade, a qual, por ser incompreensível e inatingível, explica nossa incapacidade de compreender o plano divino, exigindo de nós fé na promessa de que todo o universo coopera para o bem daqueles que amam a Deus (Rm. 8:28).

A unidade entre a misericórdia de Deus e Sua justiça, entre misericórdia e juízo, se vê de modo particularmente poderoso quando tratamos dos impedimentos das nossas orações. Nenhum de nós pode se dizer merecedor das promessas divinas em sentido absoluto; o melhor de nós só recebe qualquer coisa de Deus por misericórdia gratuita, pois mesmo nossa maior virtude resulta de sua bondade. Não obstante, há em nós muitas coisas que impedem nossos pedidos de se realizarem. O conflito entre misericórdia e juízo não é conflito em Deus, mas em nós.

O motivo mais óbvio é a falta de fé (Tg. 1:5-7; Mc. 11:24). Mas a Sagrada Escritura é bem consistente em apontar o pecado como um impedimento. Pode-se dizer que esse é um dos temas centrais dos profetas do Antigo Testamento: Deus pune a Israel por sua obstinação, e parte dessa punição é não atender às orações desse povo. Isso significa que todas as práticas espirituais de Israel se tornam vazias.

Isaías 1:11-16: De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? – diz o SENHOR. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem vos requereu o só pisardes os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene. As vossas Festas da Lua Nova e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal.

59:2-3: Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e os vossos dedos, de iniqüidade; os vossos lábios falam mentiras, e a vossa língua profere maldade.

Vários outros textos proféticos têm o mesmo espírito (cf. Is. 58:1-11; Jr. 11:11-14; 14:10-12; Mq. 3:4; Zc. 7:13; etc.). As práticas religiosas dos israelitas não esconderiam de Deus os seus pecados, nem os compensariam. Essa mesma idéia ocorre também nos Salmos e em outros textos do Antigo Testamento, os quais demonstram não se tratar de um juízo situacional sobre Israel, mas sobre o modo consistente de Deus lidar com o seu povo (Sl. 34:15-16; 66:18; 145:19; Pv. 15:8,29; 21:13; 28:9).

O Novo Testamento dá continuidade a essa idéia. Em 1Pe. 3:7, os maridos cristãos são ensinados que, se não tratarem as suas esposas como devem, suas orações serão impedidas, assim como orações feitas com intenções egoístas (Tg. 4:3). Deus resiste ao soberbo, mas dá graça ao humilde (Tg. 4:6; 1Pe. 5:5). A ligação entre guardar os mandamentos e ter as orações respondidas aparece em 1Jo. 3:22, um  tema importante na tradição joanina.

1João 3:22: “E qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus mandamentos, e fazemos o que é agradável à sua vista.”

João 15:7-10: Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos. Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço.

Por isso, os Evangelhos sinóticos nos ensinam a perdoar alguém enquanto oramos; pois se não perdoarmos, não somos perdoados (Mt. 6:14; Mc. 11:25). Por isso mesmo somos ensinados de que os misericordiosos alcançam misericórdia, indicando nossa falta de misericórdia (como a do marido mau pela esposa) como um impedimento em relação à nossa comunhão com Deus.

O modo mais irônico em que isso aparece no Novo Testamento é diante dos adversários de Jesus. No nono capítulo do Evangelho de João, Jesus cura um homem cego de nascença no sábado (9:14). Isso cria um serio problema para os fariseus, pois eles reconhecem no Antigo Testamento a premissa correta: “Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado.” (Jo. 9:16). Como um violador do Sábado poderia ser ouvido por Deus e realizar milagres de Deus? Mas eles não poderiam negar o milagre ocorrido, e é o próprio homem curado que a coloca:

João 9:31: Sabemos que Deus não atende a pecadores; mas, pelo contrário, se alguém teme a Deus e pratica a sua vontade, a este atende.

Se é verdade que os nossos pecados impedem as nossas orações, e a única solução é confessá-los (1Jo. 1:7-9), não é verdade que, na ausência de pecados atuais, nossas orações seriam sempre atendidas. Ninguém nunca está em posição de exigir nada de Deus, já que, por melhores que a graça dele haja nos tornado, ainda assim nossas orações só são respondidas quando de acordo com Sua vontade perfeita (1Jo. 5:14).

Por isso, embora seja verdade que o nosso pecado impede as nossas orações, deixando-nos por vezes sem resposta, uma ausência de resposta não indica necessariamente o pecado. Não há conexão rígida entre os nossos sofrimentos e a nossa situação. Como muitos mártires, cristãos podem passar por todo tipo de sofrimento e dor, por tempo prolongado, sem que isso tenha nenhuma relação com pecados pessoais e orações impedidas. Deus é livre.

G. M. Brasilino

 

Fonte: Vinea Dei

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