O Triunfalismo Pseudocristão

*Texto do Rev. Leandro Lima

Nos dias de hoje muitos crentes acreditam numa espécie de triunfalismo pseudocristão. Pensam que um fiel não passa por dificuldades, que não pode ter problemas financeiros ou ficar doente. Em geral, esses problemas são atribuídos ao Diabo, e pensa-se que, passar por tais dificuldades, evidencia falta de fé. Pastores ensinam os crentes a se considerarem vitoriosos sobre todos os problemas, pois são filhos de Deus, e não é justo que sofram. Devem exigir na prática o status que desfrutam como “príncipes”. Diante das dificuldades basta orar e decretar que o problema não mais existe e ele sumirá.

Basta profetizar vitórias e todos os problemas desaparecerão. Essa “teologia” se parece muito com a filosofia de vida chamada de “pensamento positivo”. O que esta forma de pensar ignora é que o mundo está debaixo da maldição do próprio Deus, e que o fato de alguém ser crente não impede que nasçam ervas daninhas em seu quintal, nem que sua esposa tenha dores de parto (Gn 3.16-18). Esses são exemplos da maldição do mundo citados pelo próprio Deus.

Outra coisa que essa forma de pensar ignora é que o próprio Deus pode enviar provações para amadurecer os crentes. A Bíblia claramente demonstra que Deus permite que venham tribulações sobre a vida dos crentes a fim de purificar a fé. Assim como Deus quis demonstrar a Satanás que Jó era fiel não apenas pelos benefícios que concedia a ele, também pode, e muitas vezes deixa o crente passar por dificuldades, a fim de que se comprove a fidelidade do mesmo. Pedro diz que os crentes deveriam se alegrar, mesmo que no presente, por breve tempo, se necessário, fossem contristados por várias provações. Segundo ele, isso aconteceria “para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo.” (1Pe 1.6-7). As provações da vida redundam no louvor à Jesus.

Paulo experimentou em sua própria vida todo tipo de provações e dificuldades. Foi várias vezes açoitado, fustigado com varas, apedrejado, enfrentou naufrágios, perigos de todo tipo, trabalhos além das forças, fome, sede, frio e nudez (2Co 11.25-27). Paulo não seria um modelo de fé para muitas igrejas da atualidade. Ele próprio fez questão de relatar um sofrimento terrível em sua vida, o qual chamou de “espinho na carne”, que o atormentava, e para o qual insistiu ao Senhor que o livrasse, mas recebeu como resposta: “a minha graça te basta” (2Co 12.7-9). Deus não retirou o sofrimento, e não adiantaria nada Paulo dizer “eu sou um filho de Deus, e decreto que esse sofrimento desapareça”, porque aquele sofrimento era para o bem de Paulo.

Era justamente essa graça (bondade) que o ensinou a “viver contente em toda e qualquer situação”. Ele diz: seja na pobreza ou na riqueza, na honra ou na humilhação, na abundância ou na escassez, “tudo posso (a ideia é: suporto tudo) naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). Curiosamente, esse verso é um dos mais usados para defender o triunfalismo supostamente cristão. Os crentes dizem “tudo posso naquele que me fortalece” querendo dizer “eu sou invencível, posso realizar qualquer coisa”, enquanto Paulo dizia: “eu consigo suportar todo sofrimento desse mundo porque ele me fortalece”. De fato, Paulo enfrentou todo o tipo de situação, algumas que quase o fizeram desesperar da vida (2Co 1.8), mas jamais deixou de ser fiel, e sua fé foi maravilhosamente amadurecida, a ponto de poder dizer ao final de seu ministério: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4.7). Nos modelos de Jó, Paulo descobriu a graça de Deus no sofrimento e, por causa dela, podia dizer “Quando sou fraco é que sou forte” (2Co 12.10).

Infelizmente, o triunfalismo alegadamente cristão impede que as pessoas tenham as maiores e mais verdadeiras experiências com Deus, e nunca levará uma pessoa a um nível espiritual mais elevado. Este triunfalismo cria crentes mimados, bebês em Cristo que nunca experimentam o verdadeiro crescimento, pois se recusam a usar os instrumentos divinos para o crescimento de seus filhos. O triunfalismo falsamente cristão ignora a verdade de Romanos 8.28: “Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. O propósito de Deus é que sejamos conforme à imagem de Cristo (Rm 8.29). Deus usa todas as coisas, inclusive o sofrimento para o nosso crescimento.

Tiago, escrevendo aos perseguidos crentes da dispersão disse: “Meus irmãos, tende por motivo de grande alegria o passardes por várias provações” (Tg 1.2). Esse apóstolo está dizendo que os crentes devem se alegrar nas provações que passam nessa vida, não porque sejam “masoquistas”, pessoas que gostam de sofrer pelo prazer de sentir dor, mas porque Deus tem um propósito até mesmo com o sofrimento. Tiago afirma que as provações vão trazer perseverança aos crentes, o que, por sua vez, os tornará maduros na fé (Tg 1.3-4).

Creio que é nesse sentido que devemos entender Romanos 8.28. Nesta vida, muitas coisas que nos acontecem são ruins, e mesmo as suas consequências imediatas não são boas, por isso também, precisamos entender que esse bem pode ser um “bem final”, aquilo que tem a ver com o propósito de Deus, pelo qual ele chamou os crentes. Devemos evitar pensar que todas as recompensas de Deus são dadas nessa vida e que recebemos, ainda nesse mundo, a justiça por toda injustiça recebida. Somos desafiados pela Bíblia a olhar para o futuro, especialmente para o Novo Céu e Nova Terra, onde todo o sofrimento desaparecerá e seremos eternamente bem-aventurados.

Porém, há ocasiões em que recebemos o bem ainda nessa vida. A Bíblia dá um exemplo disso através da vida de José. Por inveja, seus irmãos o venderam para alguns mercadores que iam para o Egito. A partir daquele momento José passou por grandes dificuldades chegando até mesmo a parar na prisão. Deus, porém, o abençoou e o fez chegar à posição de Príncipe do Egito, o segundo do reino, abaixo apenas de Faraó.

Com isso, José pode ajudar seu próprio povo, inclusive seus irmãos, impedindo que perecessem na terrível seca que sobreveio sobre a terra. É sublime o entendimento que José teve daquela situação, conforme demonstrou em suas próprias palavras dirigidas aos irmãos: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20).

Observe que José não disse que a atitude dos irmãos tinha sido boa e por isso desculpável. Eles realmente agiram mal, porém, Deus tinha um plano com aquilo tudo, de maneira que no final, tudo deu certo. A chave da questão é: “Deus transformou o mal em bem”. Sproul diz que Lutero confiava tanto nessa verdade bíblica que costumava dizer: “Se Deus me dissesse para comer o estrume de animais que fica nas ruas, eu não só comeria, como iria saber que aquilo era bom para mim”. As tragédias do mundo, de alguma forma, contribuem para que o plano de Deus se concretize.

  1. 11 de junho de 2016

    Li e concordo com o argumento citado acima, mas algo pra mim ficou sub entendido. Deus tem”prazer” em colocar uma doença em seu filho,so pra que seu nome seja glorificado?
    Ps.isso e uma duvida,nao relacionada aos versículos citaados, mas que tem haver com a questão da enfermidade.

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