O Tanque de Betesda

O Tanque de Betesda: Jesus esteve fora!

“Se ensinares, ensina ao mesmo tempo a duvidar daquilo que estás a ensinar.” José Ortega y Gasset

Sim! Não somos a verdade absoluta, nem eu, nem você, mas, o primeiro benefício que temos à nosso favor é a dúvida.

Falando nelas, discorreremos sobre um texto bíblico em João capítulo 5, que nos narra a famosa passagem de um homem paralítico, que estava a trinta e oito anos nestas condições, e que aparentemente, sobreveio-lhe decorrente de um pecado (v14), e que nas condições que estava, esperava que as águas duma piscina o curasse.

João começa-nos a descrever o cenário, dizendo que havia uma festa dos judeus em Jerusalém, e uma das mais importantes, o Pêssach, a Páscoa, a Festa da Libertação do Povo Israel da escravidão egípcia. Faz questão de mencioná-la, para traçar um paralelo com a atitude de Jesus, que embora estivesse acontecendo a Festa de maior glamour na nação, naquele hora não resolveu ir até lá pelo portão dourado de Jerusalém, onde todos os que subiam à festa passavam, mas foi pela porta das ovelhas, onde dava de cara pro tanque onde jaziam tantos desesperados e cegos por uma resposta à sua dor, mostrando claramente a prioridade do Senhor: Como festejar Pêssach, se uma grande parte do país anda cega em suas crenças particulares?!

As portas das cidades eram o lugar da maior afluência do povo, para conversas, passatempos, ou negócios, processos judiciais e até mesmo leitura da Lei de Deus. Como não haviam praças nas antigas cidades da Palestina, o povo se concentrava junto às portas, que começaram desde então, a ser sinônimo de lugar público, assim como as Ágoras da Grécia, ou o Fórum romano. Naquele dia, a porta das ovelhas estava vazia de gente, só os doentes e destruídos estavam ali. A multidão era feito só deles! Uns festejam liberdade dum lado, outros, esmoreciam em suas lamúrias e angústias do outro.

Estavam todos ali, porque criam que de certo em certo  tempo, um anjo do Senhor descia, e movimentava as águas, e o primeiro que ali saltava, era curado de qualquer doença que tivesse. Mas isso realmente acontecia?

Em primeiro lugar, devemos entender que a Bíblia interpreta ela mesma, nunca há de se confundir, e quando um ponto ou outro for obscuro, o contexto contido na mesma será a resposta.

Com base nesse pensamento, diríamos: Mas não está escrito? Na maioria das traduções, a última parte do verso 3, e o versículo 4, estão entre colchetes, e porque estão?

A razão é simples: Por não serem encontrados em vários manuscritos, não era considerada uma escrita original, mas uma nota, um rodapé do escriba que a traduzia, e é considerada no texto canônico, como um acréscimo, mas não um acréscimo no sentido de deturpar a Palavra de Deus, mas sim, para indicar a crença popular que sobre a época dominava.

Sem este texto (acrescido), ficaria assim: João 5:2-3, 5-7

2 Ora, em Jerusalém, próximo à porta das ovelhas, há um tanque, chamado em hebraico Betesda, o qual tem cinco alpendres.

3 Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressicados […]

5 Achava-se ali um homem que, havia trinta e oito anos, estava enfermo.

6 Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim havia muito tempo, perguntou-lhe: Queres ficar são?

7 Respondeu-lhe o enfermo: Senhor, não tenho ninguém que, ao ser agitada a água, me ponha no tanque; assim, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.

Claramente notamos o porquê essa nota entre colchetes aparece, pois no verso 7, o homem confirma esta crença, dizendo que sempre tentou ir ao tanque, mas outros o antecediam em todas as ocasiões.

O texto em si, se cala sobre os homens que saltavam antes dele se eram curados ou não, pois o mesmo Jesus nada fala sobre o assunto, mas o interrompe e diz: Você quer ficar curado? Mas a resposta é lógica! Logicamente que ele queria, por isso estava ali, mas a pergunta parece irônica, como quem diz: Quer ser curado e fica esperando pelo agitar das águas DESTE tanque?

(Jesus conhecia a história e tudo que envolvia essa crença popular, a narrativa bíblica em relação a cura de um homem coxo fora das águas da piscina, demonstra que Jesus interrompe uma crença pagã, crença essa que cultuava o semideus Asclépio filho de Apolo, cultuado pelas legiões romanas devido ao estado bélico desse império, os soldados moribundos apelavam para a clemência desse deus-médico para sobreviver às ferocidades das batalhas fato esse comprovado posteriormente pela sobrevivência do culto mesmo após a destruição da cidade após 70 d.C. onde a população de Jerusalém teve cinquenta por cento da população assassinada pelas legiões e a parte restante entregue aos jogos de gladiatura e a escravidão.)

É quase que Jesus confrontando com sua mente, expondo suas crenças ao ridículo… mas não deixando de oferecê-lo remédio….

Podemos assim concluir através dos séculos que a construção envolvendo o abastecimento de água com fontes também estava relacionados aos cultos pagãos ligados à cura. O sincretismo religioso iniciado nos primórdios da civilização hebréia em contato com as civilizações da Mesopotâmia foi ganhando força com a dominação dos babilônicos, dos persas e posteriormente dos helênicos assim no século I d.C. a naturalidade dos cultos pagãos de cura milagrosa coexistia com as atividades ligadas ao templo tendo uma forte oposição liderada pelos saduceus que formavam a elite do Templo.

Resumo: Nada de Anjos, nada de misticismo, somente a cura de um cérebro, e posteriormente de umas pernas…

Jefferson Sarinho

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