O Sofrimento Que Glorifica a Deus

O sofrimento faz parte do mundo corrompido em que vivemos. Diariamente, vemos nos jornais as marcas que a corrupção do pecado deixaram nesse mundo: guerras, homicídios, roubos, estupros, câncer, catástrofes naturais. Porém, embora vejamos isso no mundo, muitas vezes não somos preparados para que esses males venham sobre os cristãos, principalmente sobre aqueles os quais amamos. Então, quando os males vêm, somos pegos desprevenidos e nos questionamos por que um Deus de amor permite tanta dor. Quando um filho morre de forma trágica, às vezes ainda no ventre, quando alguém que amamos descobre um câncer, quando uma esposa perde o marido, quando uma criança perde os pais… Podemos, em virtude dessas situações, declarar que Deus é bom, mas, ao mesmo tempo, guardar amargura em nosso coração em relação a Ele. Ou, então, para fugir da verdade de que nosso Deus permitiu nosso sofrimento, negar a sua soberania e dizer que “Deus não queria que isso acontecesse, foi o homem que fez”. No entanto, escrevo esse artigo para mostrar que há esperança de encontrarmos resposta e significado para nosso sofrimento, em um Deus soberano, que controla todos os eventos, inclusive aquele que nos feriu, e que possui uma sabedoria divinamente superior à nossa. Primeiro, três considerações:

  1. Esse não é o modelo de mundo de Deus

Deus amorosamente criou um mundo perfeito para nós. Todas essas causas de sofrimento que nos afligem, não estavam presentes no Éden. No entanto, o homem, ao pecar, sujeitou toda a Criação ao pecado, e, a partir de então, a terra produziu esses espinhos. Após o pecado, Deus disse a Adão: “maldita é a terra por causa de ti” (Gn 3:17). Através de Paulo, Ele explica isso melhor: “Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8:20-22). Ou seja, se há tanta dor e sofrimento no mundo, inclusive sobre nós, somos diretamente responsáveis por isso.

  1. Às vezes Deus não nos diz a razão de nosso sofrimento

Jó nunca soube, enquanto vivo, qual havia sido a razão de tudo que lhe aconteceu. Deus não explicou o que ocorreu no céu e que motivou todo aquele sofrimento. Mas Jó percebeu que aquilo levou ele a ter um relacionamento mais íntimo e humilde com Deus, e isso foi suficiente para Jó, e deve ser para nós também.

  1. O sofrimento faz parte da vida cristã

A verdade é que Deus foi bem franco conosco: “no mundo tereis aflições”, (Jo 16:33), “muitas são as aflições do justo” (Sl 34.19) e “através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus(At 14:22). Infelizmente, isso tem sido negligenciado pelas igrejas evangélicas brasileiras, que têm pregado um evangelho adocicado de vitória, segundo o qual o crente fiel andará “de glória em glória” e todo o mal que sobrevém ao cristão é por pecado, falta de fé, de oração, ou ainda ação demoníaca. Isso gera uma sensação de opressão àquele cristão que busca viver uma vida reta com Deus, e, ainda assim, é acometido por tribulações e sofrimento. Tal crente acaba por acusar Deus de injustiça, por não ter cumprido sua promessa; no entanto, Deus nunca fez essa promessa. O que Deus prometeu é que enfrentaríamos, sim, sofrimento, mas que esse sofrimento teria um propósito, ainda que não o compreendêssemos.

Mas, então, qual o propósito do sofrimento? Eu trago aqui, pela graça de Deus, 8 possíveis propósitos, que nos são mostrados na Escritura, para o sofrimento.

  1. Para nos corrigir

Esse é o único motivo que se afirma nas igrejas evangélicas de hoje em dia. Não obstante reconheçamos na Palavra que ele não é o único, pode ser este, sim, em algumas situações, o motivo para o sofrimento. “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra. Foi-me bom ter passado por aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.67,71). Às vezes, nossa zona de conforto faz com que não lutemos tanto contra nossos pecados, ou pela carreira que nos foi proposta. Está tudo dando muito certo em nossa vida, e achamos que isso significa que estamos no caminho certo. Aliás, esse é um grande erro nosso: usar a qualidade das circunstâncias de nossa vida terrena como um termômetro da nossa vida espiritual. Isso é perigoso, pois muitos homens vivem uma vida feliz, próspera, bem sucedida, e morrem tranquilos e serenos, rodeados por sua família, mas que não tem a Cristo, e, portanto, só podem esperar condenação. Graças a Deus que vem e nos chama, através da tribulação, a nos voltarmos a ele, e isso nos deve ser motivo de alegria, “porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar” (2 Cor 7.10).

  1. Para que aprendamos a depender somente dEle

Quando tudo está correndo bem, é mais fácil ter fé. Provamos de diversas bênçãos de Deus em nosso casamento, nossa saúde, vida financeira e familiar. Contudo, Deus olha para a nossa fé e vê que ela não está somente apoiada nEle, mas também em algumas dessas bênçãos que nos foram dadas. Então, Ele amorosamente diz “a minha graça te basta”, e tira algumas delas, para que aprendamos a depender totalmente dele. Quando sofremos mais na nossa vida carnal, lembramos mais o quão maravilhosa será a vida eterna, e desejamos mais a ela. Quando Deus tira todas as coisas que nos sustentavam, nós descobrimos que a única coisa que nos sustenta de verdade é a sua mão. Quando perdemos tudo, e a única coisa que nos resta é Jesus, experimentamos como ele é tudo de que precisamos.

  1. Para que conheçamos mais a Jesus

“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Por isso, também os que sofrem segundo a vontade de Deus, encomendem a sua alma ao fiel Criador, na prática do bem” (1 Pe 4.12-13 e 19).

Devemos nos alegrar porque o nosso sofrimento nos faz mais semelhantes ao nosso Senhor, o Servo Sofredor. Quando sofremos, podemos nos identificar mais plenamente com Cristo, podemos compreender um pouco mais a dor que Ele suportou. Toda vez que as tribulações dessa vida causarem dor a você, lembre-se da dor infinitamente superior que seu Salvador passou por você, e que isso leve você a adorá-lo e glorificá-lo com mais amor.

  1. Para aprendermos a consolar os irmãos que sofrem

Quando já passamos por sofrimento, sentimos mais compaixão por aqueles que passam por ele, e sabemos melhor como ajudá-los, consolá-los, e fortalecê-los. Assim, somos mais capacitados por Deus a ajudar os irmãos que sofrem, e somos feitos mais úteis para o serviço dEle.

  1. Para testemunho

Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias em Cristo se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus. (…) será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte” (Fp 1.12-14 e 20b).

Paulo reconhece que as suas tribulações contribuíram para a expansão do Evangelho. Muitos dos crentes da história que mais contribuíram com a Igreja, com testemunhos impactantes que auxiliaram a gerações inteiras de santos, foram aqueles que mais sofreram tribulações. Vejam todo o sofrimento de Jó. Mas se passaram milênios, e, desde lá, incontáveis crentes encontraram coragem em sua história. O Senhor sabe que o sofrimento, acompanhado de fé resoluta, é uma combinação poderosíssima para a expansão do Reino de Deus.

  1. Para nos moldar

Você já orou a Deus pedindo mais fé? Pedindo que Ele te desse um relacionamento mais íntimo com Ele? Que te ensinasse a buscá-lo de todo o coração? Que te desse mais desejo por Ele? Que te fizesse mais santo? Que te fizesse mais forte? Que glorificasse o nome dele através da sua vida? E se eu te disser que a aflição pode ser um caminho para todas estas coisas? Deus está te dando mais fé, mais intimidade, mais busca, mais desejo, mais santidade, mais força, e mais glória pro nome dEle, através da sua dor. Reflita em Rm 5:3-5.

  1. Para a glória de Deus

 “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal” (2 Cor 4.7-11).

Quando você sofre, e, ainda assim, permanece firme em Deus, isso reverte em glória para Ele. Vivemos sob uma cultura que diz que a nossa prosperidade e nosso sucesso glorificam a Deus, e esquece de dizer que nossa dor também. Portanto, conforte o seu coração com essa verdade: Quando você sofre, seja pela perda de alguém amado, pelo câncer, pela traição, e mesmo assim mantém a fé e a confiança em Deus, Ele é glorificado muito, muito, muito mais do que através de uma vida inteira de conforto.

  1. Para o aumento da nossa glória eterna

 “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas” (2 Co 4:17-18).

Cada um sabe da dor que passa, e eu não sei o que você está passando. A dor tende a ocupar toda a nossa visão e nos cegar para a verdade de um Deus amoroso. Mas a Palavra nos garante que essas coisas visíveis são temporais; as invisíveis, porém, que nos estão reservadas na glória, em Cristo Jesus, são eternas. A Palavra nos assegura que os “sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8:18).

Contudo, ela afirma mais do que isso: a Palavra garante que a dor não é sem significado. Isso está produzindo um peso de glória, que está “acima de toda comparação” com a dor momentânea que você passa. Como diz John Piper: “Cada milissegundo da sua dor, vinda da natureza caída ou do homem caído, cada milissegundo da sua miséria no caminho da obediência, está produzindo uma glória peculiar, que você terá, por causa disso. Portanto, não desfaleça”.

Diante de tudo isso, devemos descansar na promessa de um Deus soberano: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.35-39).

O Senhor não prometeu livrar a nossa carne do câncer. O Senhor não prometeu livrar o nosso coração da dor de perder uma pessoa amada. O Senhor não prometeu livrar a nossa mente da tristeza eventual. O Senhor não prometeu livrar o nosso corpo da morte. Mas Ele prometeu, em meio a tudo isso, livrar a nossa alma, do inferno. Glória, pois, a Ele eternamente.

 

Que Deus nos ensine a vê-lo em meio ao sofrimento. Em Cristo.

 

“Meu coração e minha carne podem falhar, a terra embaixo de mim desabar, mas com os meus olhos, com os meus olhos, eu verei o Senhor” –  Shane Barnard

Lucas Vianna

  1. 16 de dezembro de 2016

    Amei esse artigo, quem consegue ver uma “lição” por trás do sofrimento esse sim amadureceu espiritualmente.
    Parabéns pelo o artigo, que Deus te abençoe e te ilumine cada vez mais.

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