O Silêncio de Deus
Dá-te pressa, Senhor, em responder-me; o espírito me desfalece, para que eu não me torne como os que baixam à cova. Faze-me ouvir, pela manhã, da tua Graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a Ti elevo a minha alma” (Salmos 143. 7, 8).
O Salmo 143 é o ultimo dos chamados “Salmos de penitência”. Essas composições enfatizam a pecaminosidade humana, a necessidade de arrependimento e a realidade da graça de Deus. A razão por que esse Salmo foi incluído no grupo fica bem clara no v.2 (“Não entres em juízo com o teu servo, porque à Tua vista não há justo nenhum vivente”), que provavelmente foi o ponto de referência de Paulo em contextos significativos como Romanos 3.20 e Gálatas 2.16.
O Salmista depois de apelar pela ajuda de Deus, baseando-se no que ele sabia sobre a justiça Divina e na qualidade do relacionamento que tinha com O Altíssimo, continua a temer a ausência de Deus enquanto está em aflição. Isso me faz refletir sobre a realidade da vida do cristão.
Conhecemos a Deus, Sua bondade infinita, Sua Graça não quantificável, Seu amor eterno. Temos com Ele um relacionamento verdadeiro uma vez que, por Ele próprio, fomos feitos Filhos; estávamos em trevas e fomos levados ao Reino do Filho do Seu Amor! Aleluia!
Mas, não são raras as ocasiões que passamos por tempos e circunstâncias onde a única voz de Deus que ouvimos é a Sua Voz silenciosa – inaudível aos ouvidos concentrados em si mesmos. Noutros tempos, a sensação de Sua presença era de tal forma real e perceptível que parecia que se esticássemos um pouco nossos braços, nossas mãos O tocariam. No entanto, esses momentos de silêncio parecem estar mais presentes do que qualquer outro.
Ajoelhados oramos, clamamos, choramos e, num sentimento puramente humano, parece que nossas preces não conseguem avançar além dos telhados. Essas orações são acompanhadas como que por uma profunda e contínua pausa musical.
O Salmista nesse texto dialoga com Deus dizendo: “Faze-me ouvir, pela manhã, da Tua Graça” (v.8), o que nos leva a pensar que suas orações foram feitas durante a noite ou durante a madrugada.
Vivemos tempos onde os dias são curtos e as madrugadas longas; onde o lindo versículo de Salmos 30. 5b: [… ao anoitecer pode vir o choro, mas a alegria vem pela manhã], antes tão presentes em nossos lábios, torna-se uma afetiva memória distante de um recital declamado num banco frio de uma escola dominical qualquer.
Tomando o lugar da certeza do cuidado Divino, do amparo celestial, a frieza da tristeza e a sequidão da dúvida.
A vida cristã não é como uma linha reta que leva o salvo sem obstáculos do ponto “a” ao ponto “b”. Tal caminhada é formada por vales, montanhas, avanços e retrocessos. Somos seres humanos sendo trabalhados pelo Divino. O verdadeiro desafio do salvo é, parafraseando o Rev. Augustus Nicodemus: “Não sentir nada, não ouvir nada, não ver nada, e ainda assim continuar crendo”. Essa é a síntese da vida cristã.
É nesse silêncio de Deus que temos o nosso caráter transformado, nossas forças renovadas, nossa mente clareada. O silêncio de Deus é necessário para que os gritos da nossa própria mente sejam abafados pela presença de Sua Glória. O silêncio de Deus é reconfortante. Assim como, quando um filho ao machucar-se, depois de cair da bicicleta, lança-se aos braços de seu pai, não para ouvir seus conselhos ou repreensão mas, para sentir o seu toque curador! Como é quente esse abraço silencioso! Como um abraço do Pai pode nos fazer esquecer as dores das quedas!
Se você estiver nesse momento de silêncio, em silêncio se ajoelhe e eleve seus pensamentos ao Criador; e Dele sinta a brisa mansa, suave, reconfortante e apaziguadora de Sua Santa Presença! Ouça no silêncio de Deus, sobre o Seu cuidado e amor; e aí clame por Sua vontade; Ele é seu Pai; Ele é seu Deus. Tem o prazer Santo de revelar-Se à você!
Corra às Escrituras em verdadeiro espírito de devoção, mergulhe em Suas Palavras, e nade em Sua voz!
E como Agostinho um dia descobriu, possa você dizer o mesmo:
“Tu estavas dentro de mim e eu fora… Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…” (Confissões, Agostinho).
E verás, o quão audivél pode ser o Silêncio de Deus!
Felipe Rocha
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