O Espírito Santo não é a sua consciência

“Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito.”
(Romanos 8:5)

A atividade do Espírito Santo na renovação da vida humana é simplesmente maravilhosa. Ele abre os olhos dos nossos corações, aviva nossa alma, capacita-nos a compreender as coisas divinas, conduz-nos ao arrependimento, fortalece-nos continuamente na caminhada, infunde em nós o amor divino, sob cujo influxo transcendemos finalmente a prisão do pecado e da morte. Através dele, nós nos unimos a Cristo, de modo que tudo aquilo que Cristo é, nós recebemos mediante a fé; somos lavados, santificados e justificados em Cristo. A habitação do Espírito em nós é um antegozo do Reino de Cristo e da vida eterna, assim como a fonte da esperança de que somos herdeiros de tudo isso.

É evidente que uma visão reta de tudo isso é parte da nossa comunhão com Deus. Não se exige que ninguém seja um teólogo ou um especialista na doutrina do Espírito Santo, e o simples conhecimento ou assentimento não nos coloca já na amizade divina. Mas certos erros impedem que tratemos as realidades espirituais como devemos, na busca contínua pela presença de Deus no Espírito. Esse é um pecado presente onde quer que as pessoas se considerem íntimas demais do Espírito Santo. Ou se sintam incentivadas a isso.

No evangelicalismo, especialmente nas vertentes mais místicas e carismáticas, existe essa noção bastante esquisita de que é “papel” do Espírito Santo informar as pessoas quanto elas pecam. Bastante esquisita do ponto de vista do ensino das Sagradas Escrituras, é claro, porque para essas pessoas isso pode parecer absolutamente natural — ou absolutamente sobrenatural e normal. Afinal de contas, não é comum que um cristão ouça uma “voz” lhe “acusando” de algum pecado, seja no ato, seja depois?

Mas o nome dessa voz não é “Espírito Santo”. O nome é consciência. Ela desempenha um papel importante em diversos textos bíblicos (At. 23:1; 24:16; Rm. 2:15; 1Co. 8:12; 2Co. 1:12; etc). A consciência não é um guia moral perfeito. Ela pode ser ignorante — “fraca” (1Co. 8:12), isto é, definiciente, sem a ciência (v. 1) —, mas ainda assim não deve ser violada (cf. Rm. 14:21-23). Mais do que isso, as sensibilidades para discernir o bem e o mal são parte do amadurecimento cristão, o que se desenvolve em nós pelo hábito (hexis); isso significa, óbvio, que os cristãos menos maduros não são tão capazes desse discernimento. Mas ninguém pode simplesmente se conformar a essa situação de ignorância.

Hebreus 5:14: “Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática [dia tēn hexin], têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal.”

É verdade que o Espírito Santo convence o mundo do pecado (Jo. 16:8). Isso é muito diferente de dizer que ele informa (ou repreende, ou convence) os cristãos acerca dos pecados cometidos. Convencer o mundo acerca do pecado (peri hamartias) é parte do trabalho do Espírito Santo na conversão das pessoas (o mundo). Não tem relação direta com a luta diária com os pecados.

O que realmente preocupa é que uma confusão entre a voz do Espírito Santo e a voz da consciência descaminha facilmente numa falsa impressão de “intimidade” com o Espírito Santo. Se acho que a voz da minha consciência é a voz do Espírito, por que buscar algo mais? Isso porque existe, na Escritura, algo como um guiamento direto e “verbal” por parte do Espírito Santo (cf. At. 8:29), além do guiamento que todos os filhos de Deus recebem (Rm. 8:14). Nada disso deve ser confundido com a voz da consciência, tampouco se deve assumir que todo cristão ouve diretamente a voz do Espírito. Os apóstolos o tinham, de maneira que o ensino e testemunho deles era fruto direto da ação do Espírito Santo (Lc. 12:12; 1Co. 2:13). Quem acha que já subiu toda a escada não se preocupa com o primeiro degrau. Na espiritualidade cristã não há lugar para uma “mística fácil”.

Essa falsa associação entre o Espírito Santo e a voz da consciência leva também a uma despreocupação com o entendimento revelado sobre os pecados (através da Sagrada Escritura) e com o exame de consciência, se o Espírito  me informa dos meus pecados. O resultado? Pessoas pouco espirituais e que não se conhecem bem, e sobretudo estagnadas nessa situação.

G. M. Brasilino

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