O Deus Misericordioso do Antigo Testamento

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Mateus 23:23

O uso do Antigo Testamento pela Igreja é uma das mais profundas e importantes interrogações da teologia cristã. Nas décadas anteriores à escrita dos livros do Novo Testamento, os Oráculos Sagrados dos hebreus foram a primeira Bíblia dos cristãos, como foi a Bíblia de Jesus e dos primeiros discípulos. Mortas as últimas testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, em pouco tempo vemos já as celebrações cristãs iniciadas pela leitura das memórias dos apóstolos e dos escritos dos profetas, como nos conta o mártir Justino. Nisso se expressava a fé da Igreja não apenas na continuidade da revelação de Deus entre judeus e cristãos, mas também na continuidade do Deus da revelação, que jamais muda e não mudou entre as duas eras.

Mas essa fé enfrentava os seus desafios próprios. Se, por um lado, os judeus em grande número ainda resistiam à mensagem cristã, lendo a Lei, os Profetas e os Escritos de maneira incompatível com o Cristianismo, não faltaram gentios que vissem com desprezo os escritos dos profetas. Vendo entre a Lei de Moisés e a Nova Lei uma grande contradição, os extremos se tocavam. Assim foi a heresia de Marcião. Por maior que seja esse erro, não podemos deixar de simpatizar com esses partidos pelos dilemas colocados por uma leitura conjunta das Escrituras. Nem sempre é fácil ver o mesmo Deus representado em ambos Testamentos.

Muitos teólogos cristãos ao longo dos séculos, como Agostinho e Tomás de Aquino, viram entre a Lei antiga e a nova uma distinção entre o temor e o amor. Enquanto os preceitos do Antigo Testamento eram observados pelo temor das penas, no Novo somos estimulados pelas promessas eternas através do amor. Há certa verdade nessa teologia, mas ela precisa ser bem entendida. Em primeiro lugar, porque tanto no Antigo Testamento quanto no Novo há promessas e castigos, e pode-se mesmo dizer que neste os castigos são mais temíveis. Mas muito mais porque o temor é uma das exigências do amor a Deus, um primeiro passo, um primeiro degrau. A lei do temor e a lei do amor são a lei do mesmo Deus imutável, amoroso e terrível. O erro marcionita é dar um passo além, vendo no Antigo Testamento o deus do medo e no Novo o Deus do amor.

As palavras de Cristo em Mt. 23:23 nos dão uma chave para a leitura do Antigo Testamento. A misericórdia, não sem o juízo, está entre o que há de mais importante, mais pesado e mais sério na Lei. O mesmo Cristo colocar, dentre os muitos preceitos mosaicos, o amor a Deus e ao próximo como os mais importantes, a prioridade. Isso é o que devemos buscar primeiro em nossa leitura do Primeiro Testamento. Não se trata de uma leitura seletiva, antes uma leitura que se abre para a verdadeira intenção do Autor divino.

A confissão de fé mais presente no Antigo Testamento nos fala do caráter bondoso, misericordioso e justo do Deus único de Israel, misericórdia grande a ponto de escandalizar o profeta Jonas, que quereria uma maior severidade para com os pagãos, ainda que arrependidos.

Êx. 34:6-7: E, passando o SENHOR por diante dele, clamou: SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração!

Nm. 14:8: O SENHOR é longânimo e grande em misericórdia, que perdoa a iniqüidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta gerações.

Ne. 9:17-19: Mas, pela tua grande misericórdia, não acabaste com eles nem os desamparaste; porque tu és Deus clemente e misericordioso.

Sl. 86:15: Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade.

Sl. 103:8-11: O SENHOR é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem.

Sl. 145:8-9: Benigno e misericordioso é o SENHOR, tardio em irar-se e de grande clemência. O SENHOR é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras.

Jl. 2:13: Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal.

Jn. 4:2: E orou ao SENHOR e disse: Ah! SENHOR! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.

A Lei, os Salmos e os Profetas nos dizem que Deus é misericordioso, pronto a perdoar. Espanta o Salmo 103 dizer que Deus não nos trata segundo os nossos pecados, daqueles que o temem, por ser muito grande a sua misericórdia. É verdade que os textos nos dizem também que Deus não dá o culpado por inocente. Mas Deus está pronto para perdoar qualquer um que se arrependa e rasgue o coração. Se Deus pune e castiga, não é esse o seu desejo último.

Lm. 3:31-33: O Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens.

Ez. 18:23: Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?

A misericórdia de Deus aparece não só no perdão dos pecados e em sua misericórdia no juízo, mas também em que ele atenta para a necessidade do seu povo, que ele se compadece de nós, de maneira inteiramente digna do Deus da Encarnação, o Deus que se aproxima dos pequenos.

Is. 57:15: Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.

Os. 11:4: Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me inclinei para dar-lhes de comer.

A misericórdia divina exige de nós também misericórdia, e esse é um traço constante da profecia. Se a idolatria é o grande pecado contra Deus condenado pelos videntes de Israel, o desprezo pelo fraco, pelo injustiçado e pelo desvalido é repisado amiúde pela sentenças divinas. Os símbolos da religião revelada seriam de nenhum préstimo para quem desprezava “os que nada têm” (1Co. 11:22). Nessa fala profética se inspiram as palavras do Messias, que revelam o sentido profundo da comunhão entre a justiça e a misericórdia: bem aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia.

Os. 6:6: Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

Por isso mesmo, todas as Sagradas Escrituras do Antigo Testamento expressam o amor e cuidado de Deus para com os necessitados, exigindo de nós esse cuidado para com os pobres, os estrangeiros, os órfãos, as viúvas, os perseguidos, os inocentes.

Êx. 22:22: A nenhuma viúva nem órfão afligireis.

Dt. 10:17-19: Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno; que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes. Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.

Dt. 15:11: Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra.

Sl. 10:14: Tu, porém, o tens visto, porque atentas aos trabalhos e à dor, para que os possas tomar em tuas mãos. A ti se entrega o desamparado; tu tens sido o defensor do órfão.

Sl. 68:5: Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus em sua santa morada.

Sl. 82:3-4: Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado. Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.

Sl. 146:9: O SENHOR guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva, porém transtorna o caminho dos ímpios.

Pv. 14:31: O que oprime ao pobre insulta aquele que o criou, mas a este honra o que se compadece do necessitado.

Pv. 22:9: O generoso será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre.

Jr. 22:3: Assim diz o Senhor: Executai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.

É verdade que também abundam palavras de condenação e de rejeição, pelas quais o Antigo Testamento ficou conhecido injustamente como severo e até brutal. A caricatura é antiga, mas se tornou mais forte em nossa própria época, demasiado sensível à gravidade das palavras e pouco sensível à gravidade dos pecados, na qual misericórdia se mostra não em perdão do culpado, mas em tolerância insensata do diferente. Se é verdade que as palavras severas são muitas, o culpado não é Deus, mas o homem, que repetidamente se rebela contra a bondade divina e demanda repreensão. Ao invés de contradizê-la, a misericórdia Deus demonstra perfeitamente a Sua justiça.

G. M. Brasilino

Fonte: VINEADEI

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