O Culto Pactual

Por Rev. Thomas Magnum

Introdução[i]

            A teologia pactual é de grande importância para um correto entendimento das várias esferas que envolvem a vida cristã. Ela nos guia e ajuda a entendermos como a Bíblia está estruturada no que se refere a progressividade do que Deus determinou realizar na história do mundo e em particular do seu povo. A providencia guia esse processo nas Escrituras nos dando a certeza de que Deus é soberano e governa do seu trono. Esse governo é mostrado na Bíblia através de um pacto monergístico. Um pacto que Deus dita o que será feito, a figura para isso é de um suserano e um vassalo. A aliança entre ambos deve-se no sentido que Deus é o soberano, a parte que cabe ao vassalo é a obediência e a devoção ao rei. Isso é significativo para a teologia reformada e podemos afirmar que o centro de toda teologia calvinista está nessa questão, Deus é o centro de tudo que se processa na história do mundo.

            Sendo Deus esse governador soberano do universo, não devemos negligenciar um ponto fundamental na vida do povo escolhido por Deus para a vivência desse pacto. O culto é esse ponto culminante. Deus sempre quis ser cultuado, adorado, honrado, amado e obedecido por seu povo. Por ser o soberano criador e redentor não outro que deva ser mais honrado do que Deus pelo seu povo. Pelo fato de ser Senhor sobre sua criação não outro deus e nenhuma criatura que deva ser adorada como Deus. A ordem divina para adoração em ato de culto é fundamental para entendermos a relação de Deus com seu povo eleito[ii].

            Fomos eleitos para cultuar, o texto de Romanos nos deixa claro isso de forma que a doxologia do apóstolo é crucial para entendermos a finalidade da nossa existência: “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”, (Romanos 11:36).

            Dada essa introdução seguiremos numa linha de entendimento pactual reformado sobre o culto, tendo como base a Escritura e os documentos confessionais da teologia reformada.

I – O Cultuante e o Cultuado[iii]

            Cultuante refere-se aquele que presta culto a algo ou alguém, cultuado refere-se aquele que é adorado, cultuado por outrem. Todo culto terá essa relação entre adorador e adorado. Todo culto tem um caráter relacional entre divindade e humanidade. A Palavra de Deus nos mostra que o único digno de adoração é aquele que tudo fez, que tem traçado o caminho da humanidade pelo seu eterno desígnio. Isso é uma doutrina importante nas Escrituras, o atributo da soberania de Deus nos esclarece muito sobre a questão pactual envolvida no culto ao Eterno prescrito na Bíblia. No dicionário Teológico do Novo Testamento lemos algo interessante sobre a questão:

…pode se afirmar com segurança que, nos períodos dos dois Testamentos, a adoração nasce da compreensão de Deus como criador e redentor. (As referências bíblicas a seguir são extraídas principalmente do corpus paulino.) Deus é aclamado Senhor soberano, que trouxe o mundo à existência (Rm 4.17) e é o autor de tudo que existe (Rm 11.36; ICo 8.6). Ele agiu por meio de seu Filho (Cl 1.15-20; V. Filho de Deus ) a fim de criar e resgatar, tomando as providências salvíficas para restaurar o universo quando este caiu de seu estado original e salvar a humanidade emaranhada no pecado (Rm 5.1-21; 8.18-23). Ouvem-se notas de louvor que anunciam o alvorecer de uma nova era de ações reconciliadoras e renovadoras da parte de Deus (2Co 5.17-21), e a igreja de Jesus Cristo é vista como o alvo da redenção (Ef 1.1-14), sendo o lugar em que a atividade salvífica de Deus é recitada e demonstrada (Ef 3.9,10). A cena é tanto terrena quanto situada nas regiões celestiais, propiciada pela obra do Cristo reinante, que é ao mesmo tempo o unificador do céu e da terra e o meio pelo qual os louvores da terra se unem à adoração celestial e angélica[iv].

Percebemos então que devemos partir desse princípio para uma compreensão bíblica do que é o culto a Deus. Essa compreensão pactual nos leva para solo mais firme em relação a nossa procedência como povo de Deus, tanto no âmbito da adoração, da ética, da missão, ministério e tudo mais que envolva nosso serviço a Deus como ato de louvor por sua obra criadora e redentora.

Sabedores dessa causa, precisamos investigar o que diz a Bíblia então sobre esta questão pactual, que é para nós de suma importância para uma delimitação do que entendemos por culto, ou devemos entender, não pelo nosso bel prazer, mas, seguindo o princípio da reforma do Sola Scriptura. Nos diz a confissão reformada congregacional desenvolvida em Savoy:

A luz da natureza revela que existe um Deus que mantém o senhorio e soberania sobre tudo, que é justo e bom e faz o bem a todos e, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo coração, de toda a alma e todas as forças. Mas a forma aceitável de cultuar o Deus verdadeiro é instituída por Ele mesmo e, portanto, delimitada por sua própria vontade revelada de modo que ele não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem segundo as sugestões de Satanás, sob alguma representação visível, ou por qualquer outra forma não prescrita na Sagrada Escritura[v].

            A confessionalidade congregacional puritana de Savoy também asseverou sobre a mesma questão em relação ao culto a Deus. É importante notarmos que o artigo da confissão mostra que a soberania de Deus deve ser considerada no culto a Ele mesmo, sabedores disso devemos temê-lo, amá-lo, honrá-lo, louvá-lo, invocá-lo e servi-lo. Sem a percepção inicial e o pressuposto de que Deus é soberano sobre tudo inclusive sobre o culto, não teremos uma correta teologia para adoração e culto a Deus. Por isso vemos aberrações no contexto neopentecostal como atos proféticos, campanhas disso ou daquilo, invocação de demônios, dança litúrgica, peças teatrais e tantas outras questões que tem sido inseridas no culto sem nenhum apoio das Escrituras e na verdade, baseadas em interpretações erradas de passagens da Bíblia. E de fato muitas vezes ouvindo Satanás em suas ações litúrgicas como diz Savoy. Comentando esse artigo na Confissão de Fé de Westminster, Alexander A. Hodge nos diz:

Que é um ditame da razão natural e da consciência que um Ser de infinita e absoluta perfeição, o Criador, Possuidor e Soberano Senhor, Preservador e generoso Benfeitor de todas as criaturas, e o Governante moral e absoluto de todos os agentes morais, deve ser adorado, louvado, agradecido, suplicado, obedecido e servido é por si mesmo evidente e testemunhado pelo consenso comum de todas as nações de todas as épocas. As razões para isso são – Sua absoluta e inerente perfeição; Sua infinita superioridade sobre nós; Sua relação conosco como Criador, Preservador e Governante moral; Nossa absoluta dependência dele em todo o bem e nossas obrigações para com sua infinita bondade em nosso favor; Seus mandamentos requerem isso de nossa parte; O impulso de nossa natureza como seres religiosos e agentes responsáveis; O fato de nossas faculdades encontrarem seu mais elevado exercício, e todo o nosso ser seu mais sublime desenvolvimento e bem-aventurança, neste culto e serviço[vi].

            O comentário do Hodge é muito valioso para nossa investigação nessa pesquisa. A posição de Deus e a nossa são totalmente diferentes na adoração. Deus governa, ele é perfeito e o que Ele prescreveu em sua Palavra sobre o culto deve ser tomado sem negociações pelo seu povo. Podemos observar que nas várias vezes que Israel estava em desobediência a Deus o culto era a principal evidencia da apostasia. Um culto corrompido demonstra a infidelidade e a falta de apreço pela prescrição divina. Se está dizendo de fato – “Não precisamos de suas prescrições!”. “Iremos cultuar do nosso jeito”. A Bíblia nos diz algo importante sobre essa questão no livro do profeta Malaquias quando o povo abandonou as prescrições para o culto e passou a oferecer a Deus o que eles entendiam ser o suficiente para a adoração. Deus condena veementemente o povo e seus sacerdotes[vii].

O culto não visa agradar pessoas ou satisfazer os nossos desejos pecaminosos de apresentar uma “aeróbica cultural” ou um “show culto”. Não usamos do culto para nos promover ou angariar votos ou simpatias. O culto é oferecido a Deus conforme as próprias prescrições divinas; e ele mesmo julgará a nossa oferta: buscamos o prazer de Deus, a sua santa satisfação (Is 66.4). O senso de humor de Deus é bastante diverso do nosso; a nossa sutileza pode ser o caminho mais fácil e objetivo para o cadafalso. Deus apanha os sábios em sua própria “esperteza”: “Porque a sabedoria desse mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astucia deles” (1 Co 3.19; /Jó 5.13). Não tentemos manipular Deus para os nossos interesses pessoais: Deus não se presta a isso. Ele é o Senhor e Juiz. A falta do temor de Deus é que em muitas ocasiões nos conduz a irreverência e irresponsabilidade espiritual. Lembremo-nos: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que os praticam. O Seu louvor permanece para sempre” (Sl 111.10); “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é a prudência” (Pv 9.10)[viii].

            Ao usar os termos “aeróbica cultural” e “show culto”, Maia faz uma consideração de grande importância sobre a questão a enorme preocupação atual em dialogar com a cultura, em detrimento com o verdadeiro caráter do culto que é o diálogo com Deus. Isso é sintomático, porque ao elevarmos a importância a cultura para a aceitabilidade do culto, nós podemos incorrer no erro de colocarmos em cheque o verdadeiro sentido do culto que é o diálogo com o Deus revelado na Bíblia. Uma outra questão pontuada por Maia é que a insatisfação e irreverência em “cultos” que estão próximos de espetáculos do que de adoração bíblica é a falta de temor a Deus e sua Palavra. Tudo começa com a questão, que lugar a Palavra de Deus ocupa no culto?

II – O Deus Criador e Redentor

            No entanto ao lermos o decálogo devemos observar que os dez mandamentos nos mostram Deus como Soberano Criador e Redentor, vejamos nas duas passagens bíblicas que nos mostram isso.

Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, (Êxodo 20:1-5).

            O texto inicia com a fala divina dizendo que Senhor e Deus sobre seu povo, que é seu redentor também, “te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”.  O texto nos mostra claramente a mensagem divina “Eu sou o Senhor teu Deus”. Vejamos o que nos diz o quarto mandamento:

Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou, (Êxodo 20:9-11).

            É importante observarmos que o dia de descanso aqui está ligado ao culto a Deus e aponta para a criação do mundo, notemos que o texto nos diz: “Fez o Senhor os céus e a terra”. Isso evoca a Soberania de Deus ligada à nossa obediência na adoração, especificamente aqui no culto a Deus. Então, o texto nos diz claramente que no ato cúltico a igreja deve reconhecer a Soberania de Deus como criador de todas as coisas, Ele é Governante sobre tudo e todos, sendo Ele Soberano, determina com quer o culto prestado a Ele. Mas vejamos outra passagem que nos elucida muito a respeito dessa questão.

Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu; Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido; por isso o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado, (Deuteronômio 5:14,15).

            Esse texto também é uma porção do decálogo, agora repetido por Moisés, mas, agora há uma citação interessante e importante para nosso estudo. O dia do Senhor é mencionado aqui conectado com a redenção, observemos que em Êxodo 20 ele está ligado com a ordem criacional, e agora com a redenção. Na verdade é correto afirmarmos que, esse mandamento mostra-nos o que a teologia reformada tem chamado de motivo básico – Criação, Queda, Redenção e Consumação. A consumação de fato é a finalização da obra redentora que é o já e o ainda não. Mas, neste mandamento observamos que Deus nos mostra o mandamento foi dado por causa da criação (Êx 20), também por causa da queda, porque há proibição de violar o mandamento, por causa da redenção (Dt 5) e culmina com a consumação, mas, como? O fim de todas as coisas será nosso estado eterno de glória, onde então estaremos no Dia eterno de adoração e serviço a Deus. O Dia do Senhor aqui, sendo guardado por seu povo é um antegozo do céu.

            Dada essa estrutura na argumentação acima, partiremos para próxima parte onde trataremos do culto de forma mais restrita. Nos interessa aqui a obra de Jon D. Payne sobre a beleza do culto a Deus[ix].

III – O que é o culto?

            Como já vimos acima, tratar do culto será impossível sem a visão adequada do Deus revelado nas Escrituras. Numa errada compreensão de Deus nos levará a uma errada compreensão e prática de culto. Payne nos diz:

Ao se reunirem para adorar a Deus no Dia do Senhor, os cristãos tomam parte da atividade mais significativa, importante e maravilhosa que possa existir. Não obstante, o culto não é apenas atividade preeminente da igreja, é também a principal ocupação de querubins e serafins, esses terríveis servos de Deus que voam ao redor do trono celestial com infindáveis expressões de louvor e devoção[x].

A atividade de adoração no Dia do Senhor é profundamente importante para a vida humana, para a igreja e para a teologia cristã. Como diz Payne, “é a mais significativa, importante e maravilhosa atividade humana”. Por isso o culto a Deus deve ser reverente e não irreverente, o culto deve honrar o Redentor Onipotente, o povo que está debaixo de um pacto com Deus deve obedecê-lo na adoração que já foi prescrita por Ele. Nossas afeições espirituais são moldadas pela Palavra de Deus, não devemos abraçar a ideia de entrega a nós mesmos, muitas formas de adoração contemporânea falam de entrega, mas, ao observarmos a fundo vemos que é um entrega a si próprio, ou a algo que não é o Deus revelado nas Escrituras, o que de fato há em muitos lugares é um niilismo religioso que está distante da religião bíblica e revelada ao povo de Deus. Se adoração a um deus que não é o que se revelou na Bíblia, não adoramos a Deus, mas a um deus criado por nós, um ídolo ou um demônio.

De modo geral, o culto evangélico tem-se tornado radicalmente informal, presunçosamente inovador, e biblicamente empobrecido. A maior parte disso deve-se em grande medida ao abandono da liturgia centrada em Deus e regida pela Bíblia. O que tem sido descartado é a herança litúrgica protestante que, por séculos, levou com fidelidade os cristãos a adorarem a Deus de forma bíblica, além de nutrir sua fé em Cristo mediante os meios ordinários da Palavra e dos sacramentos[xi].

            O zelo pelo culto demonstra a importância que damos a teologia. Demonstra o grau de comprometimento que temos com a adoração bíblica ao Deus que se revelou a nós, ao Deus que veio a nós por sua Palavra e por sua encarnação. Toda inovação que temos testemunhado, toda pobreza que temos visto nos cultos evangélicos é reflexo de uma teologia fraca, sem vigor, sem confessionalidade compromissada com a Bíblia. São cultos antropocêntricos, caiados por ideias humanistas e pós-modernas. O culto a Deus é centrado em Deus e na sua Palavra, que nossa diretriz para cumprirmos o que Ele determinou.

            O culto centrado em Deus é pactual, por isso estabelece um cumprimento do que Deus receber como culto a Ele. O culto é para o deleite de Deus, nós devemos nos deleitar nessa satisfação divina e, nossa satisfação e afeições na adoração devem ser decorrentes da satisfação divina.

Na tradição reformada, os crentes geralmente aderem ao chamado “Princípio Regulador do Culto”. O princípio Regulador declara que, no culto, os crentes nada devem fazer exceto aquilo que foi prescrito ou ordenado na Escritura. Esse princípio não somente salienta o fato de que Deus revelou na sua Palavra o modo como deseja ser adorado, mas, também, de modo maravilhoso, resguarda o culto das inovações da humanidade pecaminosa. Certa vez, Calvino comentou que a nossa mente é uma fábrica de ídolos, sempre inventando novos objetos de culto e imaginando novas maneiras como adorar. O Princípio Regulador considera com muita seriedade tanto a veracidade da Palavra de Deus como a falsidade do coração dos homens[xii].

            De fato, se apresenta para nós como algo importante o Princípio Regulador do Culto. Como disse Payne, nos resguarda de heresias e inovações humanistas que visem mudar o que Deus já disse em sua Palavra. Entendendo que o culto é pactual e dialogal.

 

A Preservação do Culto Pactual

            Se o povo de Deus não tem uma consciência pactual no oferecimento do culto ao Senhor teremos de fato uma profanação daquilo que nos disse a respeito do objetivo do culto. Tomemos como exemplo o livro de Êxodo e sua mensagem. A nível didático dividamos o livro em três partes fundamentais que iram girar em torno de uma temática teológica que é a Soberania de Deus.

            Nos capítulos 1 e 2 temos a soberania operante no nascimento de Moisés e na preservação de sua vida. Ali é mostrado como Deus estava dirigindo tudo absolutamente. O livro inicia-se dando continuidade ao que vinha sendo desenvolvido com base na soberania e providência na história dos hebreus em José e sua família. Chegando então ao nascimento e preservação daquele que seria o homem escolhido por Deus para ser o mais importante líder do povo hebreu. No capítulo 3 temos a soberania operando no chamado de Moisés. Deus o chama poderosamente e o leva ao seu conhecimento pactual.

            Do capítulo 4 ao 18[xiii], temos a soberania de Deus operante em Faraó, que nos diz que Deus endureceu seu coração (capítulo 7). Daí em diante teremos várias passagens que nos mostram o propósito divino com isso. As pragas nos revela claramente que um Deus soberano, que governa tudo e todos estava e está na direção da história do mundo.

            Então chegado na última parte do livro, do capítulo 19 ao 40. Vejamos que ali Deus estabelece um código de ética pactual e direciona a mensagem do livro para o culto, temos mais de vinte capítulos dedicados ao culto. Isso nos diz que o povo do pacto foi salvo pela graça, para o culto. Para uma vida de adoração a Deus, o culto é central na atividade do povo de Deus.

            Devemos perceber que Deus notifica, especifica com detalhes, como deveria ser o tabernáculo, as medidas, as cores, as figuras. Como deveria ser o sacerdócio, o serviço litúrgico, a vida administrativa do seu povo no deserto. Deus estabeleceu de forma muito completa o que queria do seu povo. Ali estava lançada uma fundamentação pactual que precisa ser observada pela igreja hoje.

            Obviamente devemos saber que as leis cerimoniais e civis foram encerradas na nova aliança, mas, a lei moral vigora e é válida no novo pacto. Mas, isso não significa que não possamos extrair princípios divinos nas leis cerimoniais e civis para a igreja hoje. A extração de princípios não é a aplicação strito senso do que está escrito no Êxodo.

            Ao observarmos o atual quadro histórico na igreja brasileira, podemos fazer alguns apontamentos em relação a grande invasão de sincretismo e de elementos que são totalmente estranhos a teologia bíblica do culto cristão. Por exemplo, onde encontramos nas Escrituras campanhas de avivamentos nos cultos do povo de Deus? Onde encontramos apelos por convertidos nos cultos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento? Onde encontramos grupos de dança litúrgica? Onde encontramos mulheres ocupando o ministério pastoral? Onde encontramos peças de teatro no culto?

            Temos uma paganização do culto. Temos elementos que são inseridos sem nenhum comprometimento com o princípio regulador. O que deve estar no culto é apenas o que Deus diz em sua Palavra e não o que a Bíblia omite. A diferença do princípio regulador para o princípio normativo deve ser considerado com muita atenção.

            Pastores que delegam irmãos sem conhecimento algum sobre a teologia do culto para fazerem a liturgia, a preocupação em importar elementos mundanos para o momento de adoração da igreja, apenas com o propósito de relevância cultural. De fato, há elementos culturais que precisam ser considerados e estarão no culto[xiv]. Mas isso não quer dizer que elementos pagãos como a dança no culto devam ser olhados como contextualização, uma investigação histórica nos mostrará que a dança cultural estava presente em religiões pagãs e não na religião dos hebreus e na igreja primitiva.

            O que Deus requer do seu povo é fidelidade ao que ele disse em sua palavra, não devemos entrar por caminhos engenhosos que burlam o ensino divino. Não devemos querer melhorar o que Deus disse, não devemos querer substituir a revelação de Deus por nossos conceitos humanistas e por tendências pagãs do nosso tempo. Não devemos nos deixar arrastar por modismos litúrgicos, por invenções, por questões avessas a revelação de Deus na Escritura.

Conclusão

            Deus convoca seu povo para cultuá-lo (Êx 20.1,2). Deus lhe mostra que sua soberania está em voga também para o culto. Não podemos desejar uma teologia sã se nosso culto é corrompido. Cheio de elementos culturais que estão mais preocupados com pessoas do que com o Deus cultuado.

            Devemos entender que existem esferas que cabem outras atividades humanas que não cabem no culto. A arte é uma esfera que pode e deve ser ocupada por cristãos, mas, o exercício artístico por exemplo como a ópera, não cabe no culto. Pelo fato de a música no culto ser congregacional e não uma mera apresentação ou recital. Isso não quer dizer que não possamos ter programações especiais com a comunidade ou congregação local que tenhamos recitais ou apreciação artística de boa qualidade.

            Quando não respeitamos os limites das esferas, promovemos uma invasão de uma na outra, vejamos outro exemplo. Imaginemos um culto no dia do Senhor, sobe a plataforma um deputado e começa a falar dos problemas legislativos, da corrupção, da falta de ética na política do país, o que pessoas com bom senso diriam? Esse não é o ambiente para isso, estamos aqui para cultuarmos ao Senhor e não para pensarmos em política. Sim, é verdade, identificamos uma invasão de esfera. A esfera da política pode ser para uma atividade que glorifique a Deus, através de um crente em Cristo? Claro que sim! Mas no culto não é o momento para isso, não é a esfera adequada. Podemos dialogar com a cultura? Sim, mas, no culto temos um padrão estabelecido por Deus em sua Palavra. As adaptações culturais que obrigatoriamente precisaremos fazer serão mínimas e necessárias para a inteligibilidade do culto.

            O que Deus estabeleceu em sua Palavra para o culto?

  • Leitura da Bíblia
  • Oração
  • Cânticos
  • Ofertório
  • Pregação

Não temos autonomia para alterar isso. Esses elementos são fundamentais e insubstituíveis. Deus disse. E se Ele disse, devemos zelosamente guardar e ensinar sua Palavra. Devemos guardar os princípios do culto pactual, centrado em Deus, regido pela Escritura que é a revelação de Deus.

[i] A delimitação desse artigo é mostrar a importância de Deus como Criador e Redentor Onipotente. Sendo assim, o culto também é direcionado por essas verdades. Não está no escopo do artigo discutir sobre a questão sacramental como eucaristia/pedoeucaristia ou credobatismo e pedobatismo.

[ii] Uma leitura fundamental para melhor compreensão da teologia pactual é o livro: Cristo dos Pactos de O. Palmer Robertson, publicado no Brasil pela editora Cultura Cristã.

[iii] Na verdade, poderíamos usar também os termos adorador e adorado. O uso de cultuante e cultuado foi mais propício para uma questão estética do texto que trata sobre culto. Mas os termos são sinônimos de adorador e adorado.

[iv] Dicionário de Teologia do Novo Testamento, Vida Nova, p. 33.

[v] Declaração de Savoy. Editora Aliança, cap. 22.1, p. 50.

[vi] Confissão de Fé de Westminster Comentada por A.A. Hodge. Ed. Puritanos. Cap. 21,1, p. 368.

[vii] NICODEMUS, Augustus. O Culto Segundo Deus, a mensagem de Malaquias. Ed. Vida Nova.

[viii] MAIA, Herminsten. O Culto Cristão na Perspectiva de Calvino. Uma Análise Introdutória. Artigo, Fides Reformata. http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_VIII__2003__2/hermisten.pdf

[ix] PAYNE, Jon D. No Esplendor da Santidade. Redescobrindo a Beleza da Adoração Reformada para o Século XXI. Ed. Puritanos, 2015.

[x] Ibdem, p. 11.

[xi] Ibdem, p. 12.

[xii] Ibdem, pp. 18,19.

[xiii] Usei a estrutura sugerida por Mark Dever em seu livro – A Mensagem do Antigo Testamento, publicado no Brasil pela CPAD.

[xiv] Como por exemplo a língua vernácula. A tradução da Bíblia que está sendo usada são questões culturais de ordem que tem o propósito de circunstâncias de culto.

[1] A delimitação desse artigo é mostrar a importância de Deus como Criador e Redentor Onipotente. Sendo assim, o culto também é direcionado por essas verdades. Não está no escopo do artigo discutir sobre a questão sacramental como eucaristia/pedoeucaristia ou credobatismo e pedobatismo.

[1] Uma leitura fundamental para melhor compreensão da teologia pactual é o livro: Cristo dos Pactos de O. Palmer Robertson, publicado no Brasil pela editora Cultura Cristã.

[1] Na verdade, poderíamos usar também os termos adorador e adorado. O uso de cultuante e cultuado foi mais propício para uma questão estética do texto que trata sobre culto. Mas os termos são sinônimos de adorador e adorado.

[1] Dicionário de Teologia do Novo Testamento, Vida Nova, p. 33.

[1] Declaração de Savoy. Editora Aliança, cap. 22.1, p. 50.

[1] Confissão de Fé de Westminster Comentada por A.A. Hodge. Ed. Puritanos. Cap. 21,1, p. 368.

[1] NICODEMUS, Augustus. O Culto Segundo Deus, a mensagem de Malaquias. Ed. Vida Nova.

[1] MAIA, Herminsten. O Culto Cristão na Perspectiva de Calvino. Uma Análise Introdutória. Artigo, Fides Reformata. http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_VIII__2003__2/hermisten.pdf

[1] PAYNE, Jon D. No Esplendor da Santidade. Redescobrindo a Beleza da Adoração Reformada para o Século XXI. Ed. Puritanos, 2015.

[1] Ibdem, p. 11.

[1] Ibdem, p. 12.

[1] Ibdem, pp. 18,19.

[1] Usei a estrutura sugerida por Mark Dever em seu livro – A Mensagem do Antigo Testamento, publicado no Brasil pela CPAD.

[1] Como por exemplo a língua vernácula. A tradução da Bíblia que está sendo usada são questões culturais de ordem que tem o propósito de circunstâncias de culto.

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