O Cordeiro Vitorioso

Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos. Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto.Apocalipse 5:5-6a

O mistério da salvação humana está gravado no oráculo do Vidente de Patmos. O Leão Vitorioso, digno de desatar os sete selos do Livro da Vida, que ninguém poderia sequer olhar, é ao mesmo tempo o Cordeiro Morto. A vítima inocente e inofensiva é Rei invencível. Sua morte é uma vitória — mas como?

Se perguntarmos a algum cristão sobre o motivo da vinda de Cristo ao mundo, há grandes chances de que nos respondam que veio morrer pelos nossos pecados, uma grande e gloriosa verdade da qual todos nós dependemos, mas que está infelizmente incompleta: ele também ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25), e isso é essencial à nossa salvação. Sendo primeiro reconciliados com Deus pela morte de Sei Filho na Cruz, somos salvos por sua Ressurreição no terceiro dia (Rm. 5:10). Mas dizer que Jesus veio apenas para morrer e ressuscitar — não pouca coisa! — ainda não diz tudo, pois faz parecer que tudo o que antecede a Semana Santa não tem qualquer relação com nossa redenção, nada além de preparação para esse momento. As teologias que esgotam a expiação na Cruz tornam o restante da vida de Cristo como que sem propósito, uma grande introdução ao Calvário.

É verdade que a doutrina reformada da Obediência Ativa procura dar um sentido salvífico à vida de Cristo, aos méritos de sua obediência, colocando a vida que Jesus viveu como fundamental para nós. Mas essa doutrina abstrata, além de não ter representação inequívoca nas Escrituras, não explica por que Cristo viveu como viveu, por que teve exatamente o tipo de vida e ministério que teve. Ele poderia ter vivido uma vida bem diferente e, no entanto, ter sido obediente ao Pai, se o plano do Pai fosse outro.

A obediência de Jesus sem dúvida é parte do plano de Deus para a redenção humana, e não só porque ela dá valor ao seu sacrifício (Jo. 6:38; Rm. 5:19; Fp. 2:8; Hb 5:8). Enquanto a desobediência do Primeiro Adão leva a humanidade à morte, a obediência do Segundo Adão recapitula a origem e destino humanos em uma nova direção, a da vida (1Co. 15:22); a mesma teologia aparece no Evangelho de Mateus, em que Cristo é o Novo Israel que por sua obediência recapitula o fracasso do Israel segundo a carne. Mas a Sagrada Escritura jamais nos ensina que essa obediência é imputada a alguém, senão que todos nós em Cristo somos beneficiários dela, e que por ela Cristo é declarado Senhor, por isso mesmo fazendo-a intransferível a qualquer outra pessoa, ainda que compartilhada conosco (Fp. 2:8-10; 1Co. 1:30). A obediência, a crucificação e a Ressurreição são uma mesma história, mas o que as enreda, e como contá-la?

Há mais: Jesus veio ao mundo também para pregar e ensinar a verdade, e não apenas com suas palavras, mas também com seu exemplo supremo (Mc. 1:38; Jo. 18:37; 1Pe. 2:21). Embora Jesus de Nazaré seja muito mais que um simples líder moral ou religioso, ele certamente não é menos do que nenhuma dessas coisas. Por isso, o Quarto Evangelho constantemente opõe, na figura de Jesus, a luz às trevas, a verdade ao engano, e por isso também o seu ensinamento não provoca paz, mas divisão, porquanto é rejeitado (Mt. 10:34; Jo. 9:39).

Esses diferentes fins da vinda de Cristo se unem somente quando vistos como dimensões e facetas diferentes e complementares de um mesmo propósito. As coisas se esclarecem, no entanto, quando vemos a condição humana não apenas em si mesma (carente de vida) ou diante de Deus (carente de justiça), mas como um membro do mundo que jaz no Maligno (IJo. 5:19), o “espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef. 2:2). Somente isso esclarece a missão de Cristo, fazendo a Encarnação, a Vida e Ministério, a Morte, a Ressurreição e a Ascensão serem contadas no mesmo fôlego: Jesus veio ao mundo para vencer o diabo, o Inimigo.

Cl. 2:15: “e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.”

Hb. 2:14-15: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.”

I João 3:8: “Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo.”

Se a destruição das obras do diabo se recoloca como narrativa da vida de Cristo, então a Cruz, a Ressurreição e o tudo o mais são reintegrados na mesma missão, como missio do Filho pelo Pai: em suas tentaçõesem seu ensino — que Satanás intentava sobrestar (Lc. 8:12) —, em seus milagres — “curando a todos os oprimidos do diabo” (At. 10:38) —, em seus exorcismos — livrando os filhos de Abraão de suas prisões espirituais (Lc. 13:16) —, em sua comunhão com os rejeitados e pequenosem sua oposição aos “poderosos deste século” (1Co. 2:8) e dando aos seus discípulos poder para enfrentar “toda a força do inimigo” (Lc. 10:19), Cristo afrontava e vencia as forças das trevas e da morte, trazendo luz e libertação aos homens, no Grande Exorcismo do mundo, no qual, disse, “o seu príncipe será expulso” (Jo. 12:31). O expurgo dos demônios sinalizava a chegada do Reino de Deus — Deus é o Rei, e o diabo é despojado e espoliado (Lc. 11:20-22; Cl. 1:13-14). A Cruz e a Ressurreição são o ápice dessa vitória que, realizada em Cristo, espera se realizar em nós (Cl. 2:15; 1Co. 15:26,54).

Desde cedo os ritos batismais cristãos passaram a incluir uma abjuração do “diabo e todas suas obras” e um exorcismo antes do sacramento mesmo. Isso porque o próprio Batismo é como que um exorcismo, pois nele somos ligados à morte de Cristo, à sua Cruz, que é a suma derrota do diabo e seu império, na qual ele mesmo se faz desprezível, pois que semeou a própria derrota levando o Filho de Deus ao Gólgota (Lc. 22:3; 1Co. 2:8), e na qual também alcançamos uma nova aliança para com aquele que entregou sua vida e seu sangue por nossa redenção.

G. M. Brasilino

Fonte: VINEADEI

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