Espinhos Na Carne- Desafios do Cotidiano Cristão

E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. (2 Coríntios 12:7,8)

Uma das características que mais me chama a atenção na Bíblia é a exposição do lado humano dos seus personagens. O versículo supracitado é um destes casos que apresente a humanidade de Paulo face ao desafio de vivenciar problemas ao longo da existência, e mais do que enfrentar problema, entender propósitos, e deles, extrair lições.

Já tive a oportunidade de ler diversos estudos e percepções sobre o que poderia ser este espinho na carne que Paulo cita. Já ouvi afirmações que esse espinho se tratava de uma perseguição de morte feita pelos judaizantes, que poderia ser uma doença de morte. Ouvi gente dizendo que era conjuntivite, que o espinho na carne era ter que trabalhar para se sustentar, ou seja, diversas teses, e coisas realmente absurdas sobre o assunto.

No início da minha caminhada cristã, meados da década de 90, quando a maldita teologia da prosperidade estava chegando ao Brasil com força total, ouvi dizer que o espinho na carne era a falta de fé de Paulo, que não tinha fé para determinar a cura (meu estômago dói até hoje quando me lembro disso).

Tragicamente, ainda hoje, há um desgaste quase que filosófico em relação às conjecturas que configuram o que de fato seria este espinho. Não acho que devemos ignorar curiosidades bíblicas, pois elas também nos ensinam muito. Mas quando lemos o contexto deste texto entendemos que há uma lição prioritária em relação a este espinho. Lição essa que compreendo como necessária para enfrentar o desafio cristão de viver.

Nos versículos iniciais deste capítulo 12 da segunda epístola aos Coríntios, Paulo diz que conheceu um homem que foi levado aos céus e viu coisas que não poderiam ser ditas. Ele estava falando de si mesmo, e de uma experiência grandiosa que teve com Deus ao ser levado ao terceiro céu.

Para que esta experiência não produzisse soberba a partir de Paulo, este espinho na carne foi enviado para que ele pudesse manter os seus “pés no chão”, ou seja, com consciência que ele em si mesmo não poderia fazer nada se não fosse por Deus. E que esta experiência a qual Deus o levou a ter, por mais grandiosa que fosse, não lhe dava direito de se sentir acima do que realmente ele era.

E é neste ponto que mantenho a atenção em relação a este versículo, e no que o mesmo pode nos ensinar para que nosso cotidiano seja vivenciado com discernimento e maturidade cristã. Acredito também que as percepções de Paulo respondem a muitos questionamentos de dilemas que são comuns a todos os cristãos na vida.

Portanto, faço algumas considerações acerca do contexto desta narrativa:

Orações “não atendidas” – coloquei entre aspas justamente para evidenciar um dos dilemas comuns para os cristãos. Paulo pediu a Deus três vezes que afastasse o tal espinho na carne dele. Deus não afastou. Mas respondeu que a Graça dEle bastava a Paulo. Muitos cristãos entendem que Deus não os respondem quando oram pedindo algo, pelo fato de Deus não fazer  LITERALMENTE o que o homem pede em oração. E isso é razão para crise de fé na vida de muitos. Porém, o fato de Deus não fazer exatamente o que pedimos não significa que Ele não tem cuidado de nós, mas significa que há uma oportunidade iminente de aprender e de depender mais de Deus.

Acredito que muitas vezes Deus permite situações em nossas vidas para que possamos reorganizar prioridades em nosso interior e enxergar a vivência do Evangelho a partir de outras perspectivas. No caso de Paulo, ele teve a consciência que enfrentou um problema difícil com este espinho para que não viesse a ensoberbecer-se. E aqui cabe uma pergunta: qual a consciência que temos em relação aos problemas que enfrentamos? O que é que temos aprendido com os nossos dilemas e com as nossas orações “não atendidas”?

Vislumbre da Graça – Fato é que Deus não removeu o problema de Paulo, mas propiciou circunstâncias para Paulo viver em meio ao problema. Conviver com problemas traz amadurecimento ao nosso caráter. Na prática, Paulo experimentou o poder de Deus que foi aperfeiçoado em sua fraqueza humana.

Lição preciosa esta: encontrar em Deus o alívio e descanso, não pelo fato de ele resolver um problema, mas pela decisão soberana de Deus nos permitir enfrentar os problemas com os olhos voltados para a Graça Maravilhosa do Pai.

Portanto concluo, que mais importante do que saber o que é o espinho na carne, é entender o que Deus pode fazer em nós através de um espinho na carne. É entender que mesmo com o sofrimento, perseguição, afronta ou qualquer obstáculo que seja, é uma oportunidade única de crescimento e de vivenciar experiências com Deus.

Que o Senhor nos ajude a caminhar com este discernimento face aos nossos desafios diários.

Abraço.

Pr. Marco Cicco.

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