Eclesiastes e a Confusão do Mundo

O Antigo Testamento dá à Providência Divina o nome de Sabedoria. Ela é a ordem que rege o mundo com propósitos transcendentes. Esses propósitos guiam os acontecimentos, ordenando um tempo para cada (3:1-8). Até mesmo o dia da morte está no controle divino, e nós nada podemos fazer a respeito dele (5:18; 8:8; 9:9). O sábio é aquele que, diferente dos demais, tem acesso à Sabedoria, e por isso ele “conhece o tempo e o modo” (8:5) do que deve acontecer.

Mas a experiência do Eclesiastes não é a de ver a Sabedoria agir no mundo, e sim a Vaidade — a fugacidade, a falta de sentido, a falta de propósito. Ele não viu propósito em toda a sua riqueza (2:11), sabedoria (2:15) ou trabalho (2:23) — tudo é Vaidade, tudo é vapor, tudo é sem propósito. O sábio é esquecido, terá o mesmo destino do tolo; as riquezas e o fruto do trabalho ficarão para outros.

Por isso, o mundo é um lugar de sofrimento, violência e opressão, muitas vezes sem qualquer consolação, de maneira que são “mais felizes os que já morreram”(4:1-3), e onde “todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo” (4:4). O trabalho é uma aflição dada por Deus aos homens (1:13; 3:10). Deus também permite a maldade no mundo para provar os homens e julgá-los (3:16-18), mas não se vê neste mundo o triunfo do juízo. Pelo contrário, não havendo punição, o coração dos homens se entrega muito mais ao mal (8:10-11). Ainda assim, nem mesmo o ímpio se vê satisfeito (5:10; 6:7).

Até o sábio pode enlouquecer diante da opressão (7:7). A Vaidade do mundo aponta facilmente para o fim de todas as coisas, a morte, e o sábio reflete sobre sua morte, seu coração está na casa do luto, não na casa da alegria (7:1-4). Sua sabedoria lhe entristece (1:18). Sucede-lhe o mesmo que ao tolo (2:14). Sua sabedoria não pode lhe proteger, mas ela o fortalece (7:15-19).

Diante de toda essa perplexidade, o Eclesiastes é capaz de ver a ação divina no mundo, embora ela seja incompreensível. Aproveitar a vida é um dom de Deus (2:24). Deus dá sabedoria, conhecimento e alegria a quem quer (2:26), assim como riquezas, bens e honra (5:19; 6:2). Mesmo os mais esforçados não têm domínio sobre essas coisas; é o tempo e o acaso que nos permitem gozar delas (5:11). O mundo não opera sob os cânones do mérito, mas na gratuidade da dádiva.

Por mais que se esforce, o sábio não será capaz de compreender o mundo (8:16-17). As obras de Deus são desconhecidas (11:5). Isso estimula um profundo senso da transcendência de Deus. Não compreendemos os propósitos divinos, ainda que dEle recebamos nossa felicidade. Por isso, diante de Deus nossas palavras devem ser poucas (5:2-3).

Somente Deus é capaz de mostrar a Sabedoria por detrás da desordem do mundo. A lição do livro de Jó é a mesma: a solução definitiva deve estar no fim da história, em uma grande compensação final, ainda que sem todas as respostas. Mas Deus se compadece de Jó ainda em vida, ele é recompensado após a tentação. Tal solução é inaceitável para o problema que o Eclesiastes encara. Ele sabe que há “há justo que perece na sua justiça, e há perverso que prolonga os seus dias na sua perversidade” (7:15). Somente o Juízo Final é capaz de solucionar o problema do mundo (12:13-14).

O Eclesiastes se aproxima muito do que as tradições paulina e joanina chamam de “mundo”, como um reino de injustiça, maldade, engano, perplexidade, a criação “sujeita à vaidade” (Rm. 8:20), aguardando a própria redenção.

G. M. Brasilino

Fonte: VINEADEI

  1. 6 de novembro de 2017

    Muito bom texto
    Excelente!
    Louvo a Deus pela vida de vocês.
    Nos ajuda muito.
    Não parem, continuem nos abençoando.

Write a comment:

*

Your email address will not be published.

© 2016 Evangelho Inegociável | porAgente Host.
Topo
Siga-nos:             
error: Content is protected !!