Didática da Pregação  (Parte 1)

Didática da pregação

Não poucas vezes escuto pessoas reclamando que não entenderam nada do que foi ensinado no culto, há quem diga que o pregador começou falando de uma coisa e não falou mais, que foi confuso, que ficou repetindo. Não tenho a intenção de ensinar alguém a pregar a Palavra de Deus, mas de tornar claro alguns pontos que ou não aprenderam em homilética ou que nunca aprenderam por não ter estudado homilética.

É preciso saber que didática e homilética são coisas distintas, ou seja, diferentes. A didática é a

Arte de ensinar, de transmitir conhecimentos por meio do ensino. Conjunto de teorias e técnicas relativas à transmissão do conhecimento. Procedimento pelo qual o mundo da experiência e da cultura é transmitido pelo educador ao educando, nas escolas ou em obras especializadas[1].

Ensino, lembra-se do que diz a Palavra de deus em Efésios 4:11? O Senhor designou pastores e MESTRES. A função do mestre é o ensino, seja ele qual for, da área que for, mas quando esse ensino se entrelaça na pregação ele está ligado com a homilética, que é a “eloquência de púlpito, de cátedra; arte de pregar sermões”[2] Essa parece estar mais ligada ao trabalho do pastor, do pregador.

Perceba que didática e homilética vivem numa relação causal, no qual, uma homilética precisa ser didática e, na pregação, a didática precisa expressar a homilética de quem fala. Será que ficou claro? Vou tentar simplificar, quem prega a Palavra deve fazê-lo de maneira eloquente (bem feito), mas só fará bem feito se cumprir seu propósito, que é o ensino da Palavra de Deus. A clareza de uma pregação só possível pela relação de didática e homilética.

Sou professor faz alguns anos, ao longo desse tempo eu aprendi a ensinar, não saí da universidade sabendo. Também não acredito que nenhum pregador deva ter nascido sabendo, mas todo aquele que se propõe a ensinar, precisa fazer isso com clareza. Ensino Filosofia para adolescentes entre 14 a 17 anos, e uma coisa que sempre digo a eles quando vão escrever uma redação ou responder as perguntas de uma avaliação é “quem ler, vai entender sobre o que você está escrevendo?”. Se sua resposta é positiva, ela precisa ser posta a prova. No caso do aluno, quem faz esse papel sou eu.

Quem prega deve se perguntar: “Quem ouvir, vai entender o que estou dizendo?”, afinal, pode-se saber muito, ter lido diversos livros e estudado em lugares de renome, se for incapaz de ensinar, não adianta nada. Imagine que você vai ensinar uma criança sobre “como nascemos”, o que você faz? Dá uma resposta científica ou simplifica sem mentir? Consegue compreender queda mesma forma deve ser feito com a Palavra de Deus? Ela precisa ser transmitida com clareza. A comida simples e bem feita agrada e sustenta mais que os pratos sofisticados, o ensino da Palavra de Deus é igual, com simplicidade e clareza, alimenta, nutre, educa e purifica o pecador faminto.

Gostaria de compartilhar com você, caro leitor, algumas “técnicas” que aprendi ao longo desses anos, algumas delas compreendi com o passar do tempo, outras aprendi com colegas de trabalho e em cursos que me foram oferecidos.

Deixo claro que não descarto a ação do Espírito Santo na pregação, tanto em quem fala quanto em ouve. A oração, a meditação, a busca por Deus daquele que prega e ensina é fundamental. Uma pregação não “vem na hora”, ela demanda trabalho do pregador, tal qual a Deus, que não dorme, mas trabalha em todo tempo (João 5:17).

 

O que aprendi!

  1. É preciso conhecer o que está ensinado. Pensar que pode parar de estudar seu objeto de ensino é uma armadilha muito comum no magistério, pode levar e levará a falência do seu trabalho. É preciso sempre saber o que sendo dito aqui e acolá, especialmente as ideias que você discorda, é preciso conhecer as ideias que se opõe, caso contrário é mera critica sem fundamento, vazia de significa e propósito de crítica.
  2. Aprendi que nenhum aluno sairá do Ensino Médio filósofo. Nos primeiros anos eu sofria por tentar ensinar Filosofia e parecer que ninguém aprendia. Foi ao que entendi, ninguém sairá graduado na disciplina. O que fazer então? Ensina-los a perceber como a Filosofia estava em suas vidas e como eles poderiam se aproveitar dela no seu dia a dia, ou seja, ensina-los a pensar de forma mais questionadora. Fazer meu aluno experimentar, viver a experiência da Filosofia é melhor, do que ensina-lo a ser Filósofo, me lembrei de Immanuel Kant (1780), o filósofo alemão ensinava que no máximo se ensinaria a filosofar, não a Filosofia[3].
  3. Nem todos querem saber, parece duro dizer isso, no entanto é a verdade, nem todos que estão em sala estão dispostos a ouvir o que o professor, no meu caso aprender Filosofia. Não se martirize por isso, nem se autoflagele mental e emocionalmente.
  4. É preciso “deixar claro” o que se ensina, “qual o objetivo da aula”. Como professor, ouvi de uma coordenadora que eu tive “professor, coloque na lousa, antes de começar a aula, o seu objetivo para aquela aula”. Isso salvou minhas aulas muitas vezes. Me fez manter o foco no que eu ensinava e o foco dos alunos no que aprenderiam.
  5. É preciso ter amor pelo que faz. Já escrevi isso em outras duas reflexões em meu blog, como escreve Paulo aos corintios:

1Mesmo que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, mas não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o prato que retine. 2E mesmo que eu tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios, e tivesse todo o conhecimento, e mesmo que tivesse fé suficiente para mover montanhas, mas não tivesse amor, eu nada seria. 3E mesmo que eu distribuísse todos os meus bens para o sustento dos pobres, e entregasse meu corpo para ser queimado, mas não tivesse amor, nada disso me traria benefício algum[4].

Diante desse texto, não preciso argumentar ele é suficiente em si mesmo.

  1. Por mais que eu me esforce para ser o melhor professor e ensinar do melhor modo, nem sempre os alunos irão responder como eu espero e cada aluno é responsável por suas próprias decisões, infelizmente não podemos fazer com que ele aprenda, aprender é uma decisão particular e individual.
  2. Preciso ter humildade, tanto para falar como no agir. Arrogância para um professor significa perder a oportunidade de compartilhar o que se sabe, e não há nada mais prazeroso para o professor que dividir o que se sabe.
  3. É necessário partir do pressuposto que se ensina para alunos com diferentes graus e formas de aprendizagem, uns aprendem mais rápido, já trazem uma experiência e conhecimento prévio de casa, já outros não. As vezes nunca ouviram falar do assunto que se está tratando, não consegue imaginar o contexto que o professor está apresentando.
  4. Planejar é condição necessária para ministrar aulas. É impossível entrar na sala de aula de improviso e dar certo todas as vezes. Vez e outra acaba-se fazendo isso, pois, mesmo planejando podemos ser pegos de surpresa com algum evento, atividade ou rotina que não dependia de nós programar. Planejar impede que desviemos do “objetivo da aula”.
  5. Não seja repetitivo, retomada de um assunto não é repetição. Pode ser que por não ter planejado bem (ou não ter planejado), o professor se repita, sendo maçante. Quero emendar nesse item o envolvimento ou engajamento. Quem ensina precisa envolver o aluno, de modo a ter sua atenção e esse aluno não se sinta cansado e pense “ah, que droga!” (para não usar outra expressão chula). Quando se é repetitivo pode não haver engajamento e envolvimento, tornando-se chato ouvir.

Se o professor cumprir esses itens a aula será perfeita? Não, será melhor. Todos os alunos irão realizar tudo? Não, nem todos estão afim, estarão bem física e emocionalmente (pensando nos mais variados contextos). Saliento também, não impedirá o aluno de achar o professor chato, as relações humanas são bastante complexas e pessoais. O professor precisa dar o seu melhor, “E tudo quanto fizerdes, fazei de coração, como se fizésseis ao Senhor e não aos homens[5].

 

E como relaciono isso à pregação?

É certo que me referi especificamente com a aula, objeto do meu trabalho, e talvez vocês tenha se perguntado: O que isso tem a ver com a pregação? Vou tentar relacionar cada um dos itens que citei com a pregação, espero que seja claro na minha exposição.

  1. É preciso conhecer as Escrituras, não estou falando em ser acadêmico, mas de conhecer a Palavra de Deus e o que ele ensina. Ler, meditar, orar diariamente nas escrituras, andar em seus passos. Aí sim, depois disso, saber teologia, depois que conhecer as Escrituras, vale a pena saber sobre as Escrituras. Um pregador que não conhece as Escrituras e sobre elas, é como um professor que não sabe o conteúdo que vai lecionar.
  2. A pregação não formará pregadores ou teólogos, tenha isso em mente. O ensino da Palavra de Deus é como Paulo escreve para Timóteo: “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; a fim de que o homem de Deus tenha capacidade e pleno preparo para realizar toda boa obra”[6]. O pregador anuncia a Verdade das Escrituras, cumprindo seu propósito.
  3. Não perca de vista que nem todos darão ouvidos a pregação, nem todos levarão a sério, nem a obedecerão. Recorde do evangelho de João:

60Ouvindo isso, muitos dos seus discípulos disseram: Essa palavra é dura; quem a pode suportar? 61Mas, sabendo Jesus no íntimo que seus discípulos criticavam suas palavras, disse-lhes: Isso vos escandaliza? 62Como seria, então, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiramente estava? 63O Espírito é o que dá vida, a carne não serve para nada; as palavras que eu vos tenho falado são espírito e vida. 64Mas há alguns de vós que não creem. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam e quem o trairia. 65E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se não lhe for concedido pelo Pai. 66Por causa disso, muitos de seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo[7]. (Grifo Nosso)

O profeta Isaias e Paulo também, escreveram declaração bem diretas a esse respeito, fora o exemplo de Israel que volta e meia se desviava do propósito de Deus, mesmo com os profetas lhes trazendo a Verdade de Deus e aviso de correção. Não pense que é exclusividade sua ter a voz rejeitada.

  1. Qual o objetivo da sua pregação? Não estou me referindo ao objetivo especifico, que é o anuncio do Evangelho de Cristo. Sem dúvidas, todo que prega dever ter em vista que o objetivo é anunciar a obra redentora de Jesus na cruz por nós. Minha pergunta é do ponto de vista particular, ou seja, você irá pregar domingo o trecho da carta da Paulo aos gálatas. A primeira coisa que você deve se perguntar é “qual o objetivo de pregar esse trecho? O que desejo que as pessoas aprendam?”.

Eu seria mais ousado lhe sugeriria: “o que quero que a igreja aprenda? Qual o meu objetivo para a congregação?”. Depois de traçado o objetivo para sua igreja local, aí você pensaria nos conteúdos a serem ensinados, ou seja, nos textos bíblicos que seriam usados, no livro ou carta á ser exposto aos irmãos (por exemplo, 1Timóteo, Salmos ou Apocalipse).

  1. O pregador precisa ter amor pela Palavra e pela pregação, precisa amar o Senhor e amar sua igreja. Um pregador que não ama o que faz, nunca conseguirá pregar eficazmente o evangelho. Você ode até não saber profundamente conceitos, não ser o maior estudioso, se você ama e zela pela pregação, o Senhor certamente te honrará, afinal, você está em busca pelo único que pode te ajudar nessa tarefa. Sem amor, sua preocupação é só você, é farisaísmo.
  2. Cada cristão é responsável pela sua vida espiritual, ninguém pode caminhar no lugar do outro. Jesus disse “quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo[8]. Você pode se decepcionar e entristecer por alguém que pecou, justamente sobre algo que ensinou durante a pregação. No entanto, não perca de vista isso, cada um dará conta de si, como está escrito:

“Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus. Porque está escrito: Juro por minha vida, diz o Senhor, todo joelho se dobrará diante de mim, e toda língua confessará a Deus. Assim, cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus”[9].

Desse modo, pregue a Palavra como recomenda Paulo à Timóteo[10] para que não lhe seja mencionado como um servo mau[11].

  1. Provérbios diz que “a arrogância antecede a destruição, e a altivez do espírito antecede a queda”[12], assim eram os fariseus, o Senhor a todo instante chama atenção nos evangelhos a esse respeito, quando os discípulos conversam entre si sobre quem é o maior entre eles, são repreendidos pelo Senhor e exortados a servir a todos igualmente[13]. João, o batista, dirá que ele deve diminuir para que o Senhor cresça[14]. Lembre-se, os humildes herdarão a terra[15]. A pregação precisa estar carregada dessa humildade, ela gera no pregador empatia, ou seja, ele se coloca no lugar de quem ouve. A humildade te faz lembrar que é preciso ser claro como se falasse com uma criança, sem subestimar sua inteligência.
  2. Lembre-se que há os mais diversos tipos de pessoas ouvindo você, algumas podem nem saber ler o texto bíblico, outras podem ter doutorado Esse ponto está intimamente ligado a humidade na pregação e não serei repetitivo. Contudo, lembre-se, ser claro é uma obrigação, todos precisam entender o que está sendo dito, e só será possível atingir as pessoas se você se lembrar de ser claro, objetivo e simples. Não queira aparecer com palavras difíceis, pode ser que elas surjam, pois fazem parte do seu universo de leitura e escrita, o que não quer dizer que é arrogância, afinal é o habito. Na pregação precisa ser habito essa lembrança, muitos e diferentes me ouvem, vou repetir, ensine como à crianças. Se for um povo que você pastoreia e cuida, saberá quando deve aprofundar, quando deve voltar e ensinar de novo.
  3. Planejamento, é essência para uma pregação, pode chamar também de preparação. Uma pregação de improviso pode acontecer, mas não será uma boa pregação se você não estiver pronto. A pregação precisa ser planejada e preparada pelo pregador de modo pontual, por exemplo, para o culto da semana. Quero ir mais longe e dizer, esteja pronto sempre, Paulo escrevendo a Timóteo pede que ele “procure apresentar-te aprovado diante de Deus, com obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”[16]. Quero me ater de modo mais extenso adiante, com algumas considerações pedagógicas sobre esse planejamento. Considere o tempo, não seja extenso demais, as pessoas se perdem ao ouvir por muito tempo.
  4. É preciso envolver o seu ouvinte, não seja chato. Como assim? Isso mesmo, não seja chato e, sem planejar você será. Retomada de uma ideia não é a repetição da ideia de forma maçante. Outra coisa, evite o máximo que puder, falar de você e sua família, repetir histórias da sua vida. Ilustração na pregação é boa em doses homeopáticas, não devem ser a regra, mas a exceção. Por isso o planejamento é importante. Repetir-se dá a impressão para o ouvinte que você não está preparado e está perdido no tema que se propôs (talvez não esteja mesmo).

Esses 10 itens garantem uma pregação efetiva? Não. Todos irão gostar da sua pregação? Não. A Igreja vai encher de pessoas para ouvi-lo? Não. Todas as respostas são não, pois não dependem de você para isso. A efetividade da pregação é com o Espirito Santo[17]; você não foi chamado para agradar os corações dos homens, mas para pregar a verdade do evangelho[18]; o objetivo não é encher igrejas, mas fazer discípulos[19].

O que resolvem então? Esses itens te ajudam a ter uma pregação melhor. Eu sei que há muitos autores falando sobre isso e muito melhor do que eu, sem dúvida, mas quero trazer a você meu amigo que lê esse texto o olhar de um professor e coordenador pedagógico da educação básica, que trabalha com crianças, jovens e adultos, a partir dos 11 anos de idade até o máximo de idade que alguém pode procurar uma Educação de Jovens e Adultos. São as mesmas pessoas que se sentam nas cadeiras e bancos das igrejas e que por vezes se sentem fora da pregação.

Rogério Moreira Penna

[1] Dicionário Aurélio (https://www.dicio.com.br/didatica/)

[2] Dicionário Aurélio (https://www.dicio.com.br/homiletica/)

[3] KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 5ª Edição. Trad.: Manuela Pinto e Alexandre Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

[4] Bíblia Sagrada – Versão Almeida Séc21. 1Corintios 13:1-3

[5] Ibdem. Colossenses 3:23

[6] Ibdem. 3:16-17

[7] Ibdem. João 6:60-66

[8] Ibdem. Lucas 14:27

[9] Ibdem. Romanos 14:10b-12

[10] Ibdem. 2Timóteo 4:1-2

[11] Ibdem.

[12] Ibdem. Provérbios 16:18

[13] Ibdem. Marcos 9:30-37

[14] Ibdem. João 3:30

[15] Ibdem Salmos 37:11; Mateus 5:5

[16] Ibdem. 2Timóteo 2:15

[17] Ibdem. João 16:8

[18] Ibdem. 2Timóteo 4:1-2; Gálatas 1:10

[19] Ibdem. Mateus 28:19

  1. 10 de outubro de 2018

    Parabéns primo Rogério, pela sua dedicação neste tema. Realmente, para ser um bom pregador, assim como um professor, é necessária a preparação da aula, do discurso e seu objectivo. Manter o foco não é tão simples. Muitas vezes apanho-me a cochilar no culto, durante a pregação, por causa da extensão da exortação, e também por causa da constante repetição. Conforme VC mesmo disse, é imprescindível a presença e influência do Espirito Santo de Deus, pará inspirar o que prega, e abençoar o que ouve, para que a semente caia em terra fértil. Deus o abençoe.

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