Deus Prefere os Pobres_

Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.
Lucas 6:20,24

Há, de fato, alguns ricos que são justos, humildes e detestam a impiedade; mas eles são poucos. João Calvino, Comentário à Epístola de Tiago

A idéia de que Deus possa preferir alguma pessoa, ou algum grupo de pessoas, é um escândalo para nossa mentalidade igualitária. Atinge, de fato, a nós mesmos — o que fazer se eu não estou entre os preferidos? É inaceitável. Ouvimos dizer que Deus não faz acepção de pessoas, e ao ouvi-lo entendemos que Deus preza a todos igualmente, não despreza a ninguém. Por isso, quando perguntamos se Deus prefere os pobres, a idéia de preferência pode nos chocar, a despeito de quais sejam as nossas intenções quanto a eles mesmo.

Nossa atenção, no entanto, deve se voltar para as Sagradas Escrituras não somente quando ela confirma e endossa nossas percepções, mas também e especialmente quando as impugna. Deus não faz acepção de pessoas, mas isso não implica num tratamento idêntico para toda a humanidade, para cada indivíduo em particular. Na realidade, Deus nos trata de maneiras diferentes justamente por não fazer acepção de pessoas, e não é muito difícil entender por quê. Num mundo onde reinam a injustiça e o engano, tratar todas as pessoas da mesma maneira é cometer uma injustiça ainda maior. Ademais, a grandeza meramente humana, marca do nosso mundo, freqüentemente encontra o desprezo divino: “o que é elevado entre os homens, é abominação diante de Deus” (Lc. 16:15).

Mas as Escrituras nos surpreendem: colocam a rejeição da acepção de pessoas e a preferência pelos pobres no mesmo contexto.

Tiago 2:1-9
Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajos de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajos de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizestes distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos?
Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam? Entretanto, vós outros menosprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem e não são eles que vos arrastam para tribunais? Não são eles os que blasfemam o bom nome que sobre vós foi invocado?
Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores.

Esse texto é um grande teste para qualquer concepção que tenhamos sobre a “parcialidade” divina. Ele nos diz que Deus destinou os pobres para a fé e para o reino, e que, justamente por isso, não devemos ser parciais em relação aos ricos. A parcialidade não é simétrica. Não obstante, a acepção de pessoas é condenada em termos absolutos (v. 9). Favorecer o pobre não seria, portanto, acepção de pessoas, o pecado condenado no texto. Não se trataria de um favoritismo pessoal. O que está em vista, como em outros textos da Escritura (Dt. 1:17; 10:17-18 16:19; 2Cr. 19:7; Jó 34:19; Ef. 6:9), é o fato de que a riqueza e o poder do rico corrompem a justiça, algo que o pobre não pode fazer; por isso mesmo sua fraqueza é objeto de compaixão. A assimetria da norma reflete uma assimetria do mundo real. O v. 5 nos fala, portanto, de uma preferência real de Deus pelos pobres, no que diz respeito à sua salvação.

A mesma lógica aparece em I Coríntios, no qual o apóstolo Paulo reflete sobre a conversão (“vocação”) e vê nela uma indicação instrutiva da providência divina:

I Coríntios 1:26-29: Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.

O apóstolo não nega haver conversão entre os sábios, poderosos e bem nascidos, mas Deus certamente escolheu as coisas loucas, as fracas, as humildes, as desprezas e as que não são, para que nenhuma glória cubra a Sua glória. A conversão traduz uma escolha, reflete uma preferência, com um propósito claro. Afinal, os sábios, os poderosos e os de nobre nascimento poderiam se vangloriar diante de Deus, se a escolha fosse naquilo que têm de bom — mas não podem, porque muito mais se salvam os pequenos. Pelo contrário, de quem muito é dado, muito mais é cobrado.

Essa preferência de Deus pelos pobres é um grande tema no Evangelho de São Lucas, talvez o mais contra-cultural dentre os quatro evangelhos — contra-mundano, na verdade. O Magnificat, cântico da bem-aventurada virgem Maria, anuncia a salvação messiânica que seu Filho encarnava, em palavras poderosas que ecoam os cânticos de salvação do Antigo Testamento, principalmente o Cântico de Ana em louvor a Deus pelo nascimento de Samuel. Essa salvação é cantada como uma reversão da ordem comum do mundo. O salvador do mundo e rei das nações não nasce entre os poderosos, mas entre os pequenos.

Lucas 1:52-53, Magnificat
Derribou do seu trono os poderosos
e exaltou os humildes.
Encheu de bens os famintos
e despediu vazios os ricos.

I Samuel 2:4-5,7-8a, Cântico de Ana
O arco dos fortes é quebrado,
porém os débeis, cingidos de força.
Os que antes eram fartos hoje se alugam por pão,
mas os que andavam famintos não sofrem mais fome;
até a estéril tem sete filhos,
e a que tinha muitos filhos perde o vigor.
O SENHOR empobrece e enriquece;
abaixa e também exalta.
Levanta o pobre do pó
e, desde o monturo, exalta o necessitado,
para o fazer assentar entre os príncipes,
para o fazer herdar o trono de glória;

No mesmo sentido, Cristo assume para si as palavras de Is. 61:1 em Lc. 4:18 (cf. Lc. 7:22): “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres”. Por isso, os seus discípulos devem também ir atrás de todos esses pequenos e desprezados:  “Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.” (Lc. 14:21). Conquanto a Igreja não tenha recebido do Senhor nenhum plano para a extinção da pobreza — aquele que é, em si mesmo, a Sabedoria, não julgou prudente tal coisa —, o cuidado com os pobres é mandamental. Existe uma justiça oculta em operação: os pobres não podem recompensar ninguém, por isso quem os ajuda é recompensado por Deus com um tesouro celestial na ressurreição (Lc. 14:13-14; 18:22; cf. Pv. 19:17); e eles mesmos, os pobres, são compensados por Deus, enquanto os ricos já tiveram sua consolação neste mundo (Lc. 6:20,24). Tudo se torna puro para o que pratica a misericórdia para com os desafortunados (Lc. 11:41), e isso é um sinal de conversão (Lc. 19:8-9), enquanto as próprias riquezas podem ser uma distração que impede a frutificação da Palavra (Lc. 8:14; cf. Mt. 13:22; I Tm. 6:9).

Trata-se, de toda maneira, não simplesmente em uma preferência pelos pobres, mas pelos pequenos, fracos, indefesos, rejeitados, o que certamente inclui os pobres. Deus está ao lado da causa e do direito deles (Sl. 140:12). Mas ressurge o perigo de associações erradas, naturais na nossa própria cultura, que nos levam na direção errada. Pois é muito fácil fazer tal preferência de Deus pelos pobres apontar na direção de uma luta de classes como na Teologia da Libertação. Deus prefere os pobres, mas prefere em quê? Falar em preferência nos remete ao contexto da preferência. Nas Sagradas Escrituras, luta de classes nunca é o contexto.

G. M. Brasilino

fonte: VINEADEI

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