Deus, Dê-Nos Uma Igreja Sem O -Sonho Americano-

Por Marcelo Lemos

Deus, perdoe-me por, não poucas vezes, esquecer de quão vibrante era minha fé na adolescência. Ser um cristão, especialmente ser evangélico, ou ‘crente’, não estava na moda naqueles dias. Estávamos vivos, mas não tínhamos, contudo, canais de tv a cabo, rádios com música gospel disponível 24 horas, versões bíblicas ao gosto do freguês, nem tantas das muitas facilidades de hoje.

Ainda assim, a fé pulsava, transformava e transbordava.

Sim, ó Deus, como nossa fé era transbordante. Éramos tão cheios que a esperança esparramava-se, conquistando para o Caminho quem cruzasse nossas vidas. Isso acontecia mesmo que não possuíssemos uma bancada evangélica tão grande e poderosa quanto hoje. Na verdade, políticos e púlpitos geralmente não combinavam. Tudo isso era como o caviar na música do Zeca Pagodinho, “nunca vi, nem comi, só ouço falar”. Era mais fácil comer caviar, imagino. Além disso, raramente podíamos ir a algum show gospel, e só com muita grana sobrando para poder comprar algum LP lançado em data recente.

Deus, vergonhoso observar que, com tão pouco, foram os crentes daqueles dias que legaram para a geração atual as maiores denominações evangélicas da história do Brasil – algumas, aliás, da história mundial. Já hoje, em meio a tanto barulho, dinheiro, holofotes e câmeras, profetas e apóstolos, nossas maiores conquistas, talvez, tenham sido ver nascer nossos próprios sites de fofoca, e a transformação de adoradores em artistas, pregadores em feirantes, pastores em políticos e empresários, e cristãos em consumidores e cabos eleitorais.

Ah, claro: também temos canais de tv, dezenas de deputados, um punhado de senadores e uma multidão de políticos em cada região do País. Somo tão poderosos e ricos que artistas decadentes no mercado secular migram para nossas feiras religiosas, fontes quase sempre seguras de lucro e fama. É como se vivêssemos o tal do “sonho americano”, seja lá o que isso signifique, só que numa versão convertida, ou melhor, gospel.

O mais triste, Deus, é que parece que nos esquecemos que é perfeitamente possível segui-lo, e frutificar, longe desse cenário onírico. Parece que fomos enganados. Acreditamos, hoje, que para evangelizar precisamos da internet, das redes sociais, dos tele-evangelistas, dos mega artistas, das mega igrejas e dos mega ungidos. E se tudo isso é sustentado pelos milhões de dólares dos dízimos e pedágios que cobramos dos pobres e das viúvas? Ninguém se importa. Como o Filho Pródigo, delapidamos a herança nos deixada por desbravadores e desbravadoras que andavam de havaianas, dirigiam ‘brasílias amarelas’ e ‘kombis sacolejantes’; e por pregadores cujo o maior alcance de suas vozes dependia, quando muito, de um megafone. Esse último, o único mega que minha geração conheceu.

Embalados nessa versão abestalhada do sonho americano – no qual tudo se avalia pelo dinheiro e pelo poder conquistado – imaginamos que mundo terrível seria o nosso se não mais pudéssemos colocar alguns políticos em nosso bolso. E é por isso que achamos perfeitamente normal receber em Sua casa, Deus, os servos do Leviatã, especialmente em época de eleição, ou quando precisamos de um bebedouro novo no corredor da Igreja.

Tememos – e que todo mal caia por terra, agora! –  que Brasília seja dominada por homossexuais, maçons, católicos, ateus, bruxos e ‘macumbeiros’ de todos os tipos e cores. Que seria de nós, em qualquer desses cenários, não é mesmo? Seria a morte para uma geração de crentes que se acostumou com os manjares da Babilônia. Viver a contracultura tantas vezes necessária na História da Igreja? Afaste de nós tal cálice, ó Senhor! Afinal, se não somos os donos do mundo, somos filhos do dono – pelo menos é o que diz o adesivo na BMW do apóstolo…

E é por isso que com medo de perdemos os privilégios deste século fechamos os olhos para a corrupção evidente, prostituímos a Graça, negociamos o Evangelho, e nos tornamos cafetões da fé, negando-a não com palavras, mas com obras.

E quer saber, Senhor? E daí que nossos antepassados tenham levado milhares e milhões aos pés da Cruz sem o glamour dos holofotes e tendo apenas alguns ‘cruzeiros’ nos bolsos? Parece, ó Deus, que nossos pais na fé confiavam mais em Suas promessas. Hoje, talvez confiemos mais nas palavras sedutoras de Mamon.

Só não espere que confessemos nada disso, Senhor: estivemos no pináculo do Templo, e gostamos.

Perdoe-nos Deus, e conceda-nos uma Igreja cujo único sonho seja o de ver realizado aquilo que diz a oração de Jesus: “venha a nós o Teu Reino, seja feita Tua vontade”.

Fonte: OLHAR ANGLICANO

  1. 11 de setembro de 2017

    Texto excelente que me deu um nó na garganta. Que Deus tenha misericórdia de nós!

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