Contracultura

Diferentes. Talvez este seja o melhor adjetivo que descreva os cristãos em meio à cultura que os cerca. Tem sido um desafio para nossos irmãos, e nós, inclusive, a batalha diária para ser aquela luz que brilha em meio à escuridão, que Paulo descreve em sua carta aos Filipenses, no capítulo 2 e versículo 15. Faz-se necessário, cada vez mais, um esforço constante e contínuo para sermos “sal que salga” e “luz que reluz” neste mundo.

A grande questão desta problemática começa no definir o que é “cultura”, e o porquê disso nos fazer, inevitavelmente, inconformados com este século (Rm 12.1-2). Nas palavras do Rev. Augustus Nicodemus Lopes, cultura é “o conjunto de valores, crenças e práticas de uma sociedade em particular, que inclui artes, religião, ética, costumes, maneira de ser, divertir-se, organizar-se, etc.”¹ Isto posto, vemos que “cultura” é algo líquido, que muda de acordo com as necessidades da sociedade e com o tempo, amoldando-se ao que convier.

Bom, abrindo um parêntese aqui, creio que seja necessário também lembrar de um dos pontos das Doutrinas da Graça, a saber, a Depravação Total. Por quê? O homem natural é depravado, afastado de Deus, morto e sem habilidade alguma de fazer escolhas morais essencialmente boas. Isso não quer dizer que ele é apenas e totalmente mau, mas que não há uma área de sua vida que não tenha sido contaminada pela mancha do pecado. A “sociedade”, por sua vez, é o aglomerado destes homens. Uma cultura, seja esta “gerada” ou “criada” pelo homem, não pode ser boa, agradável ou perfeita. Ela é, em seu cerne, contra Deus. Assim, fica claro o porquê das Sagradas Escrituras nos revelarem que devemos ser exatamente o oposto disso. Vale citar, entretanto, a questão da “graça comum”, que traz um “resquício” da misericórdia de Deus através de algumas bênçãos singulares dadas ao homem². Nas palavras de Wayne Grudem,

“Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação. A palavra comum aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente.”³

Dentro destas “bênçãos inumeráveis” podemos citar a capacidade artística, habilidades manuais e vários outros pontos.

Entenda, amado, leitor, que ainda não “toquei na ferida”. Apenas almejo definir, com os parágrafos anteriores, alguns pontos que, provavelmente, temos em comum, antes de mostrar em mais detalhes como devemos fazer esta diferença apontada na introdução.

Então, com os pressupostos estabelecidos de que o homem natural é mau, e que mesmo com a “graça comum” ele (ou seu fruto) não consegue ser agradável a Deus, entendemos que neste ponto inicia-se a distinção do Cristão com a cultura.

O fim do homem, segundo o Breve Catecismo de Westminster, é de glorificar a Deus e gozá-lo para sempre, com referências em Rm 11.36; 1Co 10.31; Sl 73.25-26; Is 43.7; Rm 14.7-8; Ef 1.5-6; Is 60.21; 61.3. Isso explana que, em todas as esferas de nossa vida, precisamos oferecer um culto constante ao Senhor. E quanto ao nosso relacionamento com a cultura, ou os “pontos” tangentes, não é diferente.

Quando nos deparamos com questionamentos expostos pelas necessidades culturais de nossa época, precisamos entender que há um método biblicamente correto de resposta. A cosmovisão bíblica da realidade é, naturalmente, oposta à que é apresentada pelo mundo e por Satanás. Quando os costumes da sociedade são transformados de acordo com o crescer da iniquidade, precisamos tomar partido e entender que não podemos nos amoldar ao que proposto.

A título de exemplo, então, cito a frequente sensualização das vestimentas. Não desejo transpor as barreiras estipuladas pela Palavra e adentrar no âmbito do legalismo, porém é extremamente necessário afirmar que o Senhor instituiu princípios a serem observados no tocante ao que devemos vestir, tais como modéstia, pudor e decência (1 Tm 2.9). Quando vemos que a sociedade, através da cultura, adequa-se ao pecado que lhe consome, é urgente nossa tomada de decisão de não participarmos disto, mesmo que chamados de retrógrados ou conservadores.

O cristão é “contracultura” quando entende que foi chamado, necessariamente, para expor a realidade, em sua vida, de que o padrão moral correto é Deus e Sua Palavra, e que qualquer coisa que fuja deste prumo está equivocada. Se é culturalmente aceito que podemos nos esquivar de alguns problemas com o típico “jeitinho brasileiro”, faz-se necessário que o cristão compreenda que não há esse “jeitinho” diante de Deus.

Quando no início deste texto citei que a cultura é, em seu cerne, contra Deus. Entretanto, e isso pode soar contraditório agora, devemos ter noção de que a “ideia” da Depravação Total deve ser aplicada aqui. Como assim? Ela não é, de todo, contrária à Lei do Senhor, mas todos os pontos do que pode ser definido como “cultura” foi tocado pelo pecado. Assim, o maior desafio para o Cristão, então, é o de não se amoldar ao padrão cultural estabelecido pela sociedade, seja entrando em conformidade ou idolatrando-o, mas também de não rejeitar a cultura num todo, esperando encontrar apenas desgraça em seu meio. O cristão deve, por fim, influenciar a cultura.

Norma Braga, em seu livro “Visão Cristã: o cristianismo e a cultura”, publicado pela editora Visão Cristã, e Fustel de Coulanges, em “A Cidade Antiga”, publicado inicialmente pela Martins Editora, trazà tona uma realidade triste do Império Romano nos séculos iniciais após a morte de Cristo: os filhos eram vistos como propriedade dos pais. Assim, os progenitores poderiam, se fosse o caso, até mesmo pôr fim à vida de seus filhos, à título de punição por algo cometido, independente da atitude praticada.

A autora citada anteriormente, então, narra que os cristãos, entendendo a brutalidade destes fatos, tomaram atitudes contrárias à cultura da época, criando orfanatos e casas de adoção, onde os pais poderiam deixar as crianças ao invés de matá-las ou abandoná-las em qualquer lugar, à própria sorte. Hoje, pela graça de Deus, a simples ideia de um pai matar seu filho nos constrange de modo sem igual, e isso se dá à atitude tomada por nossos irmãos  do passado, que lutaram contra os padrões imorais impostos e influenciaram a cultura.

Assim, amado leitor, termino este texto com a intenção de lembrá-lo que a ordenança é para que sejamos diferentes. Que pela renovação de nossa mente consigamos transpor o medo de adjetivos negativos, de apelidos dos mais variados, e que venhamos a tomar partido pela Verdade, influenciando a todos que nos rodeiam com uma cosmovisão autenticamente cristã.

Que não nos amoldemos à cultura que nos rodeia, mas que sejamos agentes ativos em sua transformação, através da pregação da Palavra, bem como do resultado de vivê-la.

Sob a Graça,

Daniel Rodrigues Kinchescki

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