Ciência e fé- Explorando Uma Fronteira Intelectual

*Texto de Alister McGrath

Meu primeiro amor foi a ciência. Eu nunca parei de amá-la.

A ciência é excelente em desmontar coisas para descobrir como elas funcionam, ajudando-nos a compreender os mecanismos subjacentes aos processos que vemos ao nosso redor no mundo.

Ansiamos ser capazes de dar sentido ao que vemos e experimentamos no mundo, buscando padrões mais profundos que se encontram sob o que nós experimentamos e observamos.

Para minha alegria, a beleza do céu noturno poderia ser complementada por algo ainda mais belo – as representações matemáticas dos processos cósmicos que inicialmente lhe deram origem e o sustentaram daí em diante. Na época, eu acreditava que isso era tudo o que poderia ser dito ou precisava ser dito.

Devo confessar que, a essa altura, eu tinha uma aversão cultural acentuada pela religião, que era aguçada por aquilo que admito ter sido arrogância intelectual. A religião era para os perdedores intelectuais.

Como um garoto de 16 anos que amava a ciência, eu acreditava que o ateísmo era a minha única opção legítima. A ciência deu provas de suas crenças. Pessoas religiosas, porém, apenas afirmavam coisas que não possuíam base científica e pareciam ser projetadas para consolá-los com delírios espúrios de significado.

No entanto, e se a ciência na verdade não pudesse fornecer respostas àquilo que Karl Popper chamou de “questões fundamentais”, tais como: Por que estamos aqui? Qual é o sentido da vida? A ciência não tinha respostas a estas perguntas, precisamente porque não havia nenhuma resposta válida a ser fornecida. As pessoas simplesmente inventaram esses questionamentos, enquanto eu estava preparado para encarar um universo sem sentido e confrontar a sua desolação existencial.

Assim, eu me concentrei em estudar ciências naturais e matemática em minha escola em Belfast, Irlanda do Norte. Eu havia estabelecido um objetivo em meu coração e em minha mente e o estabeleci como objetivo de vida. Eu amava química e a Universidade de Oxford tinha o melhor curso de química da Grã-Bretanha. Tive que permanecer na escola por um período adicional para realizar os exames de admissão de Oxford, mas valeu a pena. Em dezembro de 1970, soube que eu havia sido premiado com uma bolsa para estudar química na Universidade de Oxford a partir de outubro 1971.

O que, então, eu faria enquanto aguardava para ir a Oxford? Decidi permanecer na escola por mais dois períodos. Isto permitiu desenvolver o meu conhecimento especializado de química e aprender russo e alemão – naquele tempo, as duas principais línguas internacionais de química, além do inglês. Não sabia ao fazê-lo, mas esses dois períodos levantariam questões fundamentais em relação à minha opinião sobre ciência que iriam mudar o rumo de minha vida.

Não me lembro exatamente quando comecei a ler livros sobre história e filosofia da ciência. A biblioteca escolar tinha uma pequena coleção de obras neste campo e não demorou muito tempo para eu devorá-la. No entanto, na medida em que eu lia, aquilo eu havia considerado ser uma narrativa simples e direta da ciência e dos seus métodos começou a desmoronar. Percebi que eu tinha apenas a compreensão e o conhecimento de um jovem estudante em relação às ciências. A realidade era muito mais complicada e inquietante. Lentamente vim a perceber que eu havia me apaixonado por uma narrativa irremediavelmente simplificada da ciência. Assim, tive que aprender a lição mais difícil de um amante, ou seja, que há muito mais no amado do que aquilo que inicialmente preencheu os olhos, e que o verdadeiro amor só é aprofundado conhecendo o amado adequadamente.

Olhando para trás, ainda posso recordar os principais insights que adquiri e apreciar o seu impacto na minha vida e pensamento. Eles não me conduziram ao cristianismo, eles simplesmente destruíram uma narrativa negativa e simplista da ciência que me impediu de levar o cristianismo a sério.

Para começar, me dei conta de que havia falhado em perceber que a ciência é um método de pesquisa, não um corpo fixo de ideias. A ciência está em uma jornada e ela muda de direção ao longo do tempo – em parte através da aquisição de novos dados e em parte através da reflexão teórica contínua. O astrônomo Carl Sagan (1934-1996) elaborou este ponto elegantemente:

“A ciência é muito mais do que um corpo de conhecimento. É uma maneira de pensar. Ela nos aconselha a assumir hipóteses alternativas em nossas mentes e ver quais delas melhor correspondem aos fatos.”

Isso significa que os vereditos teóricos das ciências naturais são provisórios. Trata-se de uma descrição provisória sobre nosso atual conhecimento, sabendo que ele poderá mudar dentro de uma geração. Em 1916, o consenso científico era que o universo sempre existiu. Agora, porém, falamos que ele teve um início.

Isto é filosoficamente desconcertante. Um cientista tem de se comprometer com certas teorias, sabendo que pelo menos algumas delas se revelarão erradas no futuro. É por isso que o livro Personal Knowledge (1958), de Michael Polanyi, é tão importante para os cientistas reflexivos. Polanyi (1891-1976) foi um químico húngaro que se tornou filósofo e se viu cada vez mais perturbado por sua necessidade de comprometer-se com o que ele acreditava (cientificamente) que fosse verdade, mesmo sabendo que algumas destas verdades se mostrariam falsas. Ele defendeu a necessidade de se falar de ciência como “conhecimento pessoal” – ou seja, não de um conhecimento absolutamente certo, mas ainda capaz de gerar a crença justificada.

O conhecimento científico envolve, assim, o nosso julgamento pessoal e falível de que certas crenças são válidas e de confiança. Polanyi insistiu que devemos entender que o compromisso com crenças – sejam elas científicas ou não – inevitavelmente transcende as evidências subjacentes.

Em segundo lugar, comecei a perceber que as evidências históricas para o estereótipo popular de “guerra” entre ciência e religião eram realmente bastante inadequadas. A destruição acadêmica deste estereótipo, é claro, situava-se no futuro. O massivo revisionismo histórico que forçou uma reconsideração radical desse modelo de “guerra” ou “conflito” realmente começou a surgir na década de 1990. No entanto, há indícios de que ele já estava presente desde a década de 1960. Conforme acadêmicos influentes da área têm demonstrado – tal como Peter Harrison da Austrália –, não há relação fixa de qualquer espécie entre ciência e religião, e certamente não se trata do fato de estarem, ou necessitarem estar, em um conflito fundamental. Sua interação é rica, interessante e complexa.

Infelizmente, o movimento que conhecemos como “Neo-Ateísmo” ignora esses dois pontos, tendendo a descartá-los como preocupações triviais suscitadas por pessoas que se sentem ameaçadas pela ciência. Felizmente, esse movimento está agora retrocedendo ao passado, permitindo que voltemos a uma discussão construtiva e, acima de tudo, bem informada, sobre a relação entre ciência e fé. Isto, naturalmente, suscitou algumas boas perguntas. As respostas dadas, porém, foram irremediavelmente simplistas. Elas podem ter parecido plausíveis em um passado mais simples, mas não agora. Precisamos seguir em frente.

Mapeamento da identidade humana

Em The Big Question, exploro minha própria transição do ateísmo ao cristianismo e os marcos conceituais para relacionar a fé e a ciência que desenvolvi ao longo de um período de 40 anos. Esse livro é um relatório provisório das fronteiras entre ciência e fé, uma nota promissória que nunca pode aspirar ser “acabada” ou “perfeita”, em parte porque os campos estão se movendo e em parte porque há muito para uma pessoa acompanhar e assimilar.

Na sua essência, o livro é um apelo para um diálogo civilizado entre posições diferentes, abrindo a porta para uma enriquecida visão da realidade. Há alguns obstinados tanto na comunidade religiosa como na comunidade científica, que resistem a esse movimento temendo a contaminação intelectual ou a perda de foco, ou que persistem em acreditar que a ciência e a fé estão presas em algum tipo de guerra eterna. No entanto, nos movemos para além dessas ideologias isolacionistas ultrapassadas que repousam sobre bases altamente questionáveis.

No livro, tento mapear a forma que essas discussões podem assumir agora, à luz do deslocamento das placas tectônicas históricas e filosóficas resultantes da literatura de pesquisa em massa que transformou o campo nas últimas décadas.

Em certo sentido, a abordagem que estabeleci no The Big Question não é algo novo em sua totalidade. É uma recuperação de uma abordagem desenvolvida no Renascimento, um dos períodos mais criativos da história intelectual e cultural europeia, reformulado para levar em conta o cenário filosófico e científico nas mudanças do século XXI. É hora de fazermos novamente uso dessa abordagem em nossa agenda cultural.

Proponho um entrelaçamento de princípios e críticas de narrativas para nos ajudar a lidar com as “questões últimas” que persistentemente se recusam a ir embora em nossas discussões culturais. Para respondê-las corretamente, precisamos reunir múltiplas abordagens e reconhecer a existência de vários níveis de significado, tais como o propósito da vida, valores, um sentido de eficácia individual e uma base para o valor próprio.

A abordagem que adoto é basicamente no sentido de reconhecer múltiplas perspectivas sobre uma realidade complexa e vários níveis de explicação. É uma elaboração do tipo de abordagem proposta pela filósofa Mary Midgley, que insistiu que a complexidade da realidade exigia diversos métodos de pesquisa e abordagens. Precisamos de “muitos mapas, muitas janelas”, se quisermos representar a complexidade da realidade. “Para questões mais importantes da vida humana, várias caixas diferentes de ferramentas conceituais devem ser sempre usadas juntas”.

Infelizmente, o neo-ateísmo exigiu que a sua abordagem limitada e limitante à realidade fosse vista como exclusivamente correta. Foi uma jogada imprudente. Como o filósofo ateu e biólogo Massimo Pigliucci destacou em um estudo recente, este compromisso com um cientificismo estreito era uma má notícia para a ciência e para o ateísmo. Ele pediu aos seus leitores que se libertassem do estrangulamento dessa forma deficiente de ateísmo e adotassem algo mais sensato e realista.

Meu ponto de vista, estabelecido em The Big Question, é que a ciência e a fé podem nos fornecer mapas diferentes, mas, em última análise complementares, da identidade humana. E necessitamos de ambas, se queremos crescer como seres humanos e levar uma vida significativa e realizada. Isto não torna a nossa necessidade de sentido certa, mas a torna humana. Tanto a ciência como a fé são propensas a exagerar suas capacidades. A religião não pode nos dizer qual é a distância até a estrela mais próxima, assim como a ciência não pode nos dizer qual é o sentido da vida. Cada uma delas, porém, faz parte de um quadro maior e empobrecemos nossa visão da vida e a qualidade de nossas vidas como seres humanos se excluirmos qualquer uma delas ou ambas.

É por isso que desafio aqueles que usam o termo “humanismo” para se referirem a uma forma antirreligiosa de pensar e de viver. Não tenho nenhum problema se eles chamam isso de “humanismo secular”. No entanto, o “humanismo” trata daquilo que nos dá identidade e significado como seres humanos. Se a ciência cognitiva da religião está certa e é natural ser religioso, como alguém pode usar o termo “humanismo” para designar uma perspectiva necessariamente antirreligiosa ou secular?

É hora de sugerir que o “humanismo secular” precisa nomear a si mesmo por aquilo que ele realmente é. Qualquer forma de humanismo repousa, em última instância, sobre uma compreensão do que a natureza humana realmente é, incluindo os anseios, desejos e aspirações que são naturalmente humanos. Um humanista cristão declara que a humanidade encontra o seu verdadeiro objetivo na descoberta de Deus. Um humanista secular declara que a humanidade encontra o seu verdadeiro objetivo na rejeição de Deus. Mas fingir que “humanismo” é necessariamente o “humanismo secular” é indefensável.

A palavra “humanista” não tinha tais conotações ou associações na época do Renascimento; elas emergiram no século XX. É hora de seguirmos em frente. O humanismo cristão está vivo e passa bem, mesmo que o humanismo secular faça de conta – e não consegue – que ele não existe. Eu amplio este ponto em The Big Question e terei de retornar a ele várias vezes no futuro. Há um problema real aqui sobre as pretensões de exclusividade por parte de alguns humanistas seculares, mas não todos, devo salientar.

Da ridicularização ao respeito

Muito mais coisas precisam ser ditas sobre todas estas questões e eu discuto essas e muitas outras em The Big Question. O diálogo entre fé e ateísmo é potencialmente um dos mais importantes e mais construtivos para o futuro da cultura ocidental, na medida em que debatemos questões envolvendo sentido, moral e coesão social. Anseio ver um diálogo respeitoso, por exemplo, entre as visões seculares e cristãs da identidade humana e seu florescimento. Em outras palavras, entre o humanismo secular e o humanismo cristão.

Há, claro, um grande obstáculo para qualquer diálogo sério no momento. Os fundamentalistas de ambos os lados descartam qualquer sugestão de diálogo e respeito por considerarem um sinal de traição, contaminação e conluio. Penso, por exemplo, nos neo-ateus trolls de internet que parecem ter sido vítimas de uma das características mais desagradáveis da polêmica de Christopher Hitchens, ou seja, a implantação da ridicularização e da difamação no lugar do argumento fundamentado e evidenciado, sensível à complexidade das coisas. Isso me lembra da crítica de Platão das políticas atenienses de sua época em que a “grosseria é tomada como um sinal de sofisticação.”

Eu nunca descartaria o ateísmo por considerar ridículo, ou por considerar tolos os ateus. Eu mesmo já fui ateu e isto me leva a respeitar o ateísmo, não a tratá-lo com desprezo. Claro, existem alguns ateus muito estranhos, espelhando a estranheza de algumas pessoas religiosas. Entretanto, não se pode tratar dissidentes que estão à margem como se fosse o todo dominante. Precisamos de um diálogo respeitoso de princípios que busca ativamente os melhores representantes de uma posição e envolvê-los de forma construtiva e crítica.

Infelizmente, a característica mais marcante do neo-ateísmo é a sua propensão para parodiar e difamar. Eles obtiveram algumas manchetes em 2006 e 2007, quando o movimento era considerado uma novidade, mas, felizmente, já está desgastado. Agora que o neo-ateísmo está em declínio, talvez cristãos e ateus possam voltar para o tipo de conversas sérias que são tão necessárias.

***

The Big Question tenta transmitir a sensação de prazer e satisfação intelectual que eu encontro em explorar a visão vibrante da realidade que se manifesta quando a ciência e a fé estão autorizadas a criticar e enriquecer uma a outra. A velha narrativa do conflito entre ciência e religião é agora vista como historicamente subdeterminada e ideológica. Seu encanto foi quebrado. É hora de seguir em frente, encontrar e adotar uma abordagem melhor, como a narrativa de enriquecimento que proponho para a discussão. Talvez seja errado, mas isso só torna mais importante ter vozes ateístas críticas e construtivas na conversa.

Traduzido por Breno Perdigão e revisado por Maria Gabriela Pileggi.

Texto original:Science and Faith: Exploring an Intellectual Frontier”. ABC.

Fonte: TUPORÉM

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