Agenda Moralista Da Igreja Ou Ética Cristã_

“Nunca vi nada mais ineficiente, sem fundamento teológico e bizarro do que a pauta moralista da igreja, nesse ano de eleição”. Foram essas as palavras iniciais do Pr. Antônio Carlos Costa, num texto postado aqui no Facebook. A tese defendida pelo autor é a de que os pontos de vista sobre moralidade do Cristianismo não devem ser levados para a política, e não devem ser levantados como princípios norteadores da escolha a ser feita para presidente da República.

De acordo com ele, a ineficiência se manifesta diante da impossibilidade de alguma legislação, presidente da República, passeata etc., ser capaz de operar uma transformação na vida de uma pessoa. Quem é homossexual militante não o deixará de ser por causa de nenhuma dessas coisas. Ele pergunta, de modo sarcástico: “Esperamos que candidato opere a ressurreição dentre os mortos?” Para ele, uma vez que o Cristianismo não tem o poder de transformar os corações, sua única preocupação deve ser a de pregar o evangelho. E não é que ele não defenda pautas morais cristãs. De acordo com ele ainda, quem o ouviu pregar em congressos nos quais ele pregou nas últimas semanas, pôde conhecer os seus pensamentos a respeito de questões como aborto, ideologia de gênero e outras.

Ao final de todo o seu arrazoado, o autor afirma não acreditar que estamos inseridos numa sociedade profundamente influenciada pelo marxismo cultural. De acordo com ele, o que existe é uma cultura neoliberal.

O grande problema com a argumentação do Pr. Antonio Carlos Costa é que ela não reflete o que, de fato, o cristianismo histórico fez ao longo dos séculos. Para começo de conversa, o que ele chama de “agenda moralista”, historicamente é conhecido como Ética Cristã. E um dos princípios da Ética Cristã é o de que ela não é válida apenas para os cristãos. Ela é válida para todas as pessoas, para toda a humanidade.

É falacioso afirmar que, uma vez que as pessoas não serão convertidas à força, os padrões morais de Deus não devem ser levados para a discussão pública. O que dizer da repreensão feita pelo profeta Daniel ao rei Nabucodonosor (Daniel 4.27)? Por quais padrões morais o profeta Jonas anunciou o juízo de Deus contra Nínive? Não teria sido de acordo com os padrões morais que o Senhor revelou em sua Palavra, padrões esses que revelam os eu caráter universalmente santo? Wayne Grudem destaca que muitas passagens do Antigo Testamento tratam dos pecados praticados por nações pagãs, nações estrangeiras, e essas passagens mostram que os padrões morais de Deus serviram como os indexadores da maldade dessas nações e o critério pelos quais elas seriam julgadas: “cf. Isaías 13-23; Jeremias 46-51; Ezequiel 25-32; Amós 1-2; Obadias (dirigido a Edom); Jonas (enviado a Nínive); Naum (dirigido a Nínive); Habacuque 2; Sofonias 2”. De acordo com Grudem: “Esses profetas falaram a outras nações porque o Deus revelado na Bíblia é Deus de todos os povos e de todas as nações da terra. Ele é seu Criador e, um dia, eles comparecerão diante dele para ser julgados” (Política Segundo a Bíblia. p. 83).

E quanto ao apóstolo Paulo? Quando ele esteve diante do governador romano Félix, teve o atrevimento de anunciar, além da fé em Jesus Cristo, a “justiça, do domínio próprio e do Juízo vindouro” (Atos 24.24-25). Por mais que Félix não tenha sido convertido, ele ficou amedrontado e, certamente, os padrões morais que Paulo anunciou o impactaram. Então, como assim, a igreja não deve levar os padrões éticos e morais, revelados nas Sagradas Escrituras, para a discussão pública e, especificamente, para o debate eleitoral?

Gostaria de mostrar, mais uma vez, o exemplo do apóstolo Paulo, agora diante dos gregos, dos filósofos estóicos e epicureus. No Areópago, falando a pagãos, a não cristãos, Paulo diz: “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (Atos 17.30-31). Como Paulo teve a coragem de impor esses padrões a gentios, que não eram cristãos? Simples, esses padrões são universalmente válidos.

É verdade que apenas aqueles que têm os seus corações transformados obedecerão à lei de Deus de acordo com aquilo que os puritanos chamavam de “obediência evangélica”, ou seja, como expressão de amor e gratidão pelos benefícios concedidos em Cristo Jesus. Mas, uma vez que o Pr. Antonio Carlos Costa é calvinista e lê a respeito da sua fé desde a década de 80, creio que ele seja familiarizado com o usus civilis da lei, ou seja, o uso da lei de Deus, por meio do qual a malignidade dos homens e da sociedade é refreada. Levantamos questões relacionadas ao aborto, ideologia de gênero, liberação das drogas, por exemplo, porque entendemos que Deus é suficientemente claro em sua Palavra a respeito dessas questões, e sua vontade revelada é o padrão para todos os povos. Como destaca Mauro Meister: “É certo que a lei não opera nenhuma mudança interior no coração humano, fazendo-o justo ou reto no obedecê-la, mas opera como um freio, contendo ‘as mãos de uma ação extrema’” (Lei e Graça. p. 62). Por que levamos a Ética Cristã para a discussão? Porque é o nosso desejo que a maldade humana, demonstrada no aborto, por exemplo, seja coagida, restringida. Desejamos também que esse tipo de malignidade seja impedido de se alastrar em nosso país. Simples.

É igualmente enganoso reduzir o conteúdo do evangelho à salvação em Jesus Cristo, perdão dos pecados e garantia da eternidade no Novo Céu e Nova Terra, como parece sugerir o Pr. Antonio Carlos Costa. Confesso que ao ler suas palavras no sentido de que “o chamado é para pregar o evangelho”, senti-me um pouco confuso, visto que suas ênfases me parecem equalizar salvação em Cristo com justiça social apenas. Além do que, é bastante claro que o autor é bastante engajado em causas políticas. Assim, creio que concordemos com o fato de que o evangelho é a boa-nova de Deus, em Cristo Jesus, para o homem, sim, mas também para toda a criação, para todo o cosmos. O evangelho também possui implicações para a transformação social.

Gostaria de mencionar apenas um exemplo dessa verdade e, com ela concluo. Historicamente, foi a “agenda moralista” da igreja que contribuiu para a abolição de prática como o infanticídio e o aborto, no século IV, no Império Romano. O historiador Alvin J. Schmidt faz um arrazoado interessante sobre isso. Ao chegarem a Roma, vindos de Jerusalém e de outras partes da Ásia Menor, os cristãos se recusaram a seguir o ditado: “Quando em Roma, faça como os romanos”. De acordo com ele, para os cristãos “o baixo valor da vida entre os romanos era uma afronta chocante para os primeiros cristãos, que vieram a Roma com uma visão exaltada da vida humana” (How Christianity Changed the World. Posição 921. Edição Kindle). Foi por causa dos seus padrões que os cristãos conseguiram que o aborto e o infanticídio fossem proibidos no Império Romano, em 374 d.C.

Então, como assim, devemos manter nossa ética apenas na esfera privada? Bem que eu queria me estender mais e tratar dos pressupostos do autor do texto em questão, mas já falei muito.

Rev. Alan Rennê

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