Adúltera

“Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério, e fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo. Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que de entre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire a pedra. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela  própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava. Erguendo-se Jesus e não vendo ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor! E lhe disse Jesus: Nem eu também te condeno; vai e não peques mais.” (Jo 8.3-11)

Estes versículos me trazem algum espanto e assombro ao coração. Por diversas vezes já ouvi pregações sobre o “silêncio de Jesus” e o “vá e não peques mais”, porém o Espírito trouxe ao meu coração algumas coisas que me deixaram, ao mesmo tempo, perplexo, contristado, temeroso e ainda mais preso nas “garras da Graça”.

Desejo, neste artigo, escrever o máximo que puder sobre cada um destes versículos, pois imensa é a verdade neles contida. Convém, então dar início pelo versículo 3.

Em primeiro lugar, vemos que a mulher é “surpreendida em adultério”, no ato. À parte do pecado que ela estava cometendo, preocupo-me com o detalhe de que os escribas e os fariseus a apanharam no ato, no momento exato em que ela cometia tal falta. Pergunto-me, então, como? Adultério, fornicação, o ato sexual em si mesmo (e digo o correto, dentro do matrimônio) não é praticado às claras, sob o olhar de todos. É algo feito no íntimo, entre quatro paredes. Neste ponto, então, desejo iniciar a assertiva: o péssimo hábito de nos preocuparmos mais com os pecados alheios do que com os nossos.

Paulo escreveu aos de Corinto que cada um devia fazer uma análise de si, de sua vida, para aí então participar da Ceia do Senhor (1Co 11.28). Este exame, entretanto, deve ser também diário e rotineiro em nossas vidas. Precisamos constantemente verificar nossas atitudes, entender se louvam ou não ao Senhor e, sendo negativa a resposta, delas nos arrependermos.

Observando o versículo 3, ainda, podemos notar que além de surpreenderem a mulher no ato do adultério, levaram-na ao público, expondo-a sob o olhar de todos que pelo local passassem. Aqui está, então, outra terrível característica de nossa natureza depravada: a de usarmos os erros do outros como desculpas para os nossos.

Ao fazerem isto, os fariseus e escribas, que com o passar dos tempos tornaram-se o símbolo maior de hipocrisia, mostravam que eram, de fato, uma “raça de víboras” (Mt 3.7). O ser humano tem esta tendência de esquivar-se da responsabilidade, culpando a outros pelos próprios erros. Foi assim no Éden quando Adão culpou a Eva, e esta, à serpente (Gn 3.12-13), e infelizmente tem sido em toda a história da humanidade.

Além disto, vemos o triste ato de expor alguém aos risos. O erro, pecado, nunca deve ser motivo de alegria e escárnio em alguma congregação, no seio da Igreja. Nenhum de nós pode usar do juízo para condenar alguém ao inferno. Podemos e devemos, com amor, repreender o pecador pelos seus atos equivocados, porém nunca o enterrando ainda mais profundo no lamaçal de culpa e dor em que se meteu.

Nos versículos 4, 5 e 6 notamos, mais uma vez, a hipocrisia na fala e nas atitudes dos acusadores. Chegam a Cristo chamando-O de “Mestre”, porém com o desejo sombrio em seus corações de enganá-LO. Dão início ao seu discurso com falsas bases teóricas, apontando que a Lei ordenava a morte das mulheres que cometessem o adultério. Não é isto, entretanto, que nos narram os livros de Levítico e Deuteronômio (Lv 20.10 e Dt 22.22). Em ambos os casos o homem deveria morrer também. Com isto, vem à mente aquele velho ditado, “de boas intenções o inferno está cheio”.

Não nos enganemos, amados irmãos. Há sim entre nós lobos devoradores que usam da Palavra de Deus para extrair, das mais simples ovelhas, o máximo de “tutano” que conseguirem. Infelizmente, temo que isto soe cada vez mais familiar aos nossos ouvidos. Pela graça, então, temos uma resposta aos que fazem tais coisas: “que sejam malditos!” (Gl 1.8-9).

Dando continuidade, nos deparamos com o versículo 7 – e que maravilhosa resposta de Jesus! Sendo o Justo Juiz e Rei por excelência, o Mestre levanta-se e trata do pecado. Não do que cometido pela mulher, mas daquele que os escribas e fariseus praticaram. O Senhor trata da hipocrisia, do julgamento incorreto e injusto, que não observou atentamente os parâmetros estipulados pela Lei, da sede por vingança, do esforço para tentar a Deus.

Antes de finalmente corrigir a mulher apanhada em adultério, que era desonrada não apenas pelos seus atos, mas também pela exposição pública, o Messias trata do pecado daqueles que a apanharam. Que isto nos sirva de lição, amados. Conforme já dito anteriormente, que saibamos como está a condição de nossas almas antes de avaliarmos as dos outros. Não atire pedras se você também tem teto de vidro.

Nos versos 8 e 9, onde o Senhor Jesus, após proferir sua condenação, torna a escrever no chão. A Palavra nos conta que, acusados pela própria consciência, os escribas e fariseus afastaram-se do local – um a um, começando pelos mais velhos. E quanta tristeza isso traz ao meu coração! Eles estavam lá, tão próximos de Jesus, a fonte de todo o perdão Divino, e não conseguiram encontrar a salvação que tanto necessitavam! Uma só palavra, um só pedido, um dobrar de joelhos, e toda a condenação que lhes pesava a mente teria sido arrancada de uma vez só! Todo o fardo do pecado, todo o julgo e peso da morte, com o tão belo e singelo arrependimento, com a tão dolorosa, mas ao mesmo tempo aliviante confissão de pecados, lhes teria saído dos ombros! Que venhamos, constantemente, encontrar em Cristo, na Palavra e no consolo do Espírito, o alívio para nossas abatidas almas. Que fujamos de toda a aparência do mal (1Ts 5.22), sabendo, entretanto, que enredados por ele, encontraremos no trono da Graça o perdão para nossas falhas (Hb 4.14-16).

Por fim, então, os versículos 10 e 11, quando Jesus finalmente trata do pecado da mulher. Cristo, ao contrário do que fizeram os fariseus e escribas, trata com ela uma forma diferente.

Em primeiro lugar, Ele não a expõe para que outros notassem a repreensão ou o erro. Quando já não havia mais ninguém é que Jesus dirigiu-se à mulher.

Em segundo lugar, Ele lembra-a de que os acusadores, que queriam-na condenar, eram seus iguais perante a Lei, visto que nenhum deles a pôde condenar – “todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23).

Em terceiro lugar, Ele a perdoa dizendo “nem eu tampouco te condeno”.

Em quarto e último lugar, Ele determina que ela não peque mais. Perdoa-a, mas não deixa de lhe demonstrar sua reprovação ante o comportamento pecaminoso da mulher.

Amado leitor, minha oração após a leitura deste artigo é que venhamos a desenvolver, dentro de nós, mais deste caráter de Cristo. Que venhamos a condenar o pecado, porém sabendo como tratar os pecadores e principalmente aqueles que buscam o perdão de Deus.

Sob a Graça de Deus,

Daniel Kinchescki

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