A Trindade No Antigo Testamento

Todo cristão ao ler as Escrituras deve partir do pressuposto de que na revelação dos atos e do ser divino, bem como dos dogmas cardeais da fé cristã, a Trindade se faz presente. Devemos ter em mente que a Bíblia é essencialmente trinitária, e que ela só pode ser compreendida corretamente a partir dos óculos hermenêuticos de uma cosmovisão trinitária. Isso é óbvio quando se leva em consideração que nosso entendimento sobre Deus é o conceito central da nossa visão básica da qual partimos para compreender a realidade1.

Sendo a Bíblia essencialmente trinitária é errado supor que a revelação do Deus Triúno seja apenas um fenômeno neotestamentário, ao contrário, a Trindade é o fundamento do Velho Testamento. Isso não significa que os autores veterotestamentários tivessem pleno conhecimento da triunidade de Deus, não obstante, ao se lançar a luz da Cosmovisão Trinitária, completada a posteriori com a revelação mais plena do Novo Testamento, o “rico mobiliário trinitário” do Antigo Testamento, antes parcialmente iluminado, se faz percebido com mais nitidez2.

UNIDADE DE DEUS2

A premissa trinitária de que “Há absolutamente um só Deus e Deus é absolutamente um só” é ensinada de maneira clara nas páginas das Escrituras Hebraicas. Exortando o povo à obediência, Moisés declarou: “A ti te foi mostrado para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há senão ele.” (Deuteronômio 4.35). Com estas palavras Davi dirigiu-se a Jeová: “Portanto, grandioso és, ó Senhor Deus, porque não há semelhante a ti, e não há outro Deus senão tu só, segundo tudo o que temos ouvido com os nossos ouvidos.” (2 Samuel 7.22). De modo similar, seu filho Salomão orou dizendo: “Para que todos os povos da terra saibam que o Senhor é Deus, e que não há outro. (1 Reis 8.60).

Com isso concordam também os profetas, vaticinando o reino vindouro do Messias, escreveu o filho de Berequias: “E o Senhor será rei sobre toda a terra; naquele dia um será o Senhor, e um será o seu nome.”(Zacarias 14.9). Contrariando aqueles unitaristas que a fim de admitir a existência de “divindades secundárias” querem diminuir o peso dessas declarações, o profeta messiânico não deixa dúvidas quanto ao fato de que a inexistência de deuses fora de Jeová é uma verdade absoluta e atemporal, e não meras declarações contextuais: “Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor, e meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá.”(Isaías 43.10).

A Bíblia não só insiste na existência de um só Deus, como também que esse Deus é essencialmente um. Deus possui “Ser” ou uma essência autoexistente, pessoal, eterna e imutável. Em uma Teofania na forma do Anjo de Yahweh, Deus Filho disse a Moisés: “EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.” (Êxodo 3.14). Uma outra declaração interessante sobre a unicidade de Deus é encontrada no Shemá: “Shemá Israel YHWH Eloheinu YHWH ehad.” – “Ouve, Israel, Yahweh nosso Deus, Yahweh é Um” (Deuteronômio 6.4)3

Alguns erroneamente advogam que “Um” (‘ehad) designa a essência de Deus como uma unidade composta, uma espécie de “tripartidismo”. Não é esse o caso, visto que Deus em seu Ser é absolutamente simples, sem partes ou composições. Outros, como os adventistas, concebem o ‘ehad quase que como uma “união”, mais do que como uma unidade ontológica indivisível. Outros afirmam que tanto o termo ‘ehad, quanto o termo ‘yachidaqui, não faria a mínima diferença, e assim tomam “um” num sentido unitarista que exclui qualquer possibilidade de pluralidade em Deus.

Minha posição é a de que ‘ehad, de fato significa uma unidade absolutamente simples, sem quaisquer partes ou composições. No entanto, ‘ehad pode admitir em si uma pluralidade de pessoas, sujeitos ou “quens” (Gênesis 2.24; Êxodo 24.3). Assim, a afirmação ontológica que podemos abstrair da confissão do Shemá é a de que a essência divina é uma unidade absolutamente simples na qual pode coexistir uma pluralidade de pessoas4.

TRINDADE DE DEUS2,5

O Antigo Testamento insinua diversas vezes que Deus é plural ou que existe algum tipo de diversidade em Deus. No Antigo Testamento, o nome plural “Elohim” – literalmente ‘Deuses’ ocorre milhares de vezes. Outras construções plurais para Deus também são: “‘Osay” – literalmente ‘Fazedores’ – (Jó 35.10; Salmos 149.2; Isaías 54.5), “Boḥuroṯeḵā” – literalmente ‘Criadores’ –  (Eclesiastes 12.1) e Qedhoshím – literalmente ‘Santos’ (Provérbios 9.10;  30.3) ou ainda Elohim Qedhoshím – literalmente ‘Deuses Santos’ (Josué 24.19)6,7. No entanto, tais expressões não devem ser tomadas como significando uma pluralidade de “Deuses”, mas como plurais que denotam a majestade e a excelência de Deus e que insinuam sua diversidade.

O Antigo Testamento contém diversas outras insinuações da pluralidade de Deus:  “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1.26); “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Ora, não suceda que estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente.” (Gênesis 3.22); “E disse: Eis que o povo é um e todos têm uma só língua; e isto é o que começam a fazer; agora não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que não entenda um a língua do outro.” (Gênesis 11.6,7) “Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem irá por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim.” (Isaías 6.8).

      Não só a pluralidade é insinuada, como o Antigo Testamento também insinua que essa pluralidade é uma triplicidade. Tais insinuações plurais são claramente contrárias as heresias unicistas:

  • Teofania TrinitáriaGênesis 18 – 19
  • Bênção TrinitáriaNúmeros 6.24-26
  • Adoração TrinitáriaIsaías 6.3
  • Fórmulas TrinitáriasGenesis 1.1-3 (Deus, Palavra, Espírito) Isaías 63.9,10 (Deus, o Anjo de Yahweh e o Espírito Santo); Isaías 61.1 (Jeová, ‘Mim’ e o Espírito); Isaias11.1-2 (Jeová, o Messias e o Espírito); Isaías 48.16 (Deus, ‘Mim’, Espírito).

Na medida em que o Pai é a Fonte ou o Princípio da Deidade, as referências a Deus no Antigo Testamento aplicam-se por eminência a Ele, mas o mesmo designativo também é comum ao Filho. Existem muitas evidências veterotestamentárias da deidade de Cristo. As teofanias de Cristo na forma do Anjo de Yahweh testemunham a respeito de Sua Divindade (Gênesis 16.7-13; 32.22-32; Êxodo 3.2; 14.19). Também lemos a respeito do Messias: “O teu trono, ó Deus, subsiste pelos séculos dos séculos; cetro de eqüidade é o cetro do teu reino.” (Salmos 45.7);“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz.” (Isaías 9.6); “Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este é o nome de que será chamado: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA.” (Jeremias 23.6)8.

      Quanto a este último versículo, Calvino refuta os antitrinitários dizendo:

Mas, de fato, resta ainda um debate maior em torno de outra passagem de Jeremias [33.16], onde Jerusalém é mencionada com esses mesmos títulos: ‘Este é o nome com que a chamarão: o Senhor, Justiça Nossa.’ Esta referência, porém, está mui longe de contrapor-se à verdade que estamos a defender; aliás, ainda mais, a confirma. Ora, como Jeremias havia já antes testificado que Cristo é o verdadeiro Jehovah de quem promana a justiça, declara agora que a Igreja de Deus haverá de sentir isto verdadeiramente, de tal modo que se haverá de se gloriar no próprio nome. Daí, na passagem anterior, refere-se a Cristo como a fonte e causa da justiça; nesta, adiciona-se o efeito disso. (As Institutas I.XIII.9)8

Quanto ao Espírito Santo, o mesmo tem um papel ativo na criação (Gênesis 1.2; Jó 26.13; Salmos 33.6), e é o Autor da Vida (Gênesis 2.7; Jó 27.3; 33.4; Salmos 104.30). Aliás, o Espírito Santo é o próprio Autor divino do Antigo Testamento (Números 11.29; 2 Samuel 23.2; Miquéias 3.8)9.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os textos acima relacionados só podem ser bem entendidos numa cosmovisão trinitária, nem o unicismo, nem o unitarismo são capazes de oferecer um sistema adequado para a compreensão da revelação de Deus no Antigo Testamento. Embora reconheçamos que os crentes da antiga dispensação não estivessem plenamente cônscios da triunidade de Deus, eles não estavam totalmente sem luz quanto a esse mistério.

FONTES:

1 http://www.e-cristianismo.com.br/teologia/trindade/uma-cosmovisao-trinitaria.html

2 SILVA, André de Aloísio de Oliveira da. A Trindade Imanente: Unidade de essência e diversidade de pessoas como igualmente fundamentais em Deus. Teresinha: Seminário Teológico do Nordeste Memorial Igreja Presbiteriana da Coreia – Monografia, 2014.

3http://www.unitarismobiblico.com/1/?p=362

4 http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=140

5http://centrowhite.org.br/perguntas/perguntas-e-respostas-biblicas/a-trindade-sem-misterio-i/

6 http://biblehub.com/

7 Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas com Referências 

8As Institutas Vol. I – João Calvino. Disponível em: http://www.protestantismo.com.br/institutas/joao_calvino_institutas1.pdf

 9 Stamps, D. C. (1995). Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

Autor: Bruno Queiroz

  1. 21 de março de 2017

    Provérbio 8,30

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