Criando Filhos para a Glória de Deus

Muito cedo, aprendi com o Breve Catecismo de Westminster que o fim principal do homem é glorificar a Deus.

Tudo que o existe é Dele, por Ele e para Ele (Romanos 11.36), Deus formou e fez o homem para Sua glória (Isaías 43.7), quer vivamos ou morramos, pertencemos ao Senhor (Romanos 14.7-8), não há dúvidas, a Bíblia deixa isso bem claro, nossa principal finalidade é glorificar ao Senhor.

Por um tempo, ainda na adolescência, eu entendia a ordem de glorificar a Deus com minha vida, servindo-O, fazendo algo “grandioso”, “relevante”, missões talvez, eu pensava, uma vida desapegada de bens materiais, servindo ao próximo, certamente deveria glorificar ao Senhor.

Mas a vida vai acontecendo, não dá para parar o tempo e fazer um plano de ação: “como glorificar a Deus com minha vida”, técnicas de planejamento e gestão não se adequam. Então, comecei a trabalhar, fui à faculdade, mas algo não ia bem, eu não estava glorificando a Deus com a minha vida, não estava fazendo nada “relevante”. Casei. Uma vida rotineira, idêntica à vida de milhares e milhares de pessoas, nada “grandioso”.

Engravidei. Criar filhos é grandioso, relevante. Estava claro que deveria criar filhos para a glória de Deus. Educá-los para que sejam homens honestos, íntegros, bons crentes e bons cidadãos, futuros profissionais, maridos e pais. Então passei a pensar no futuro dos meus filhos, cria-los para a glória de Deus era a minha missão, afinal, Deus os tinha confiado a mim. Se o resultado fossem homens convertidos ao Senhor, maduros espiritualmente e bem-sucedidos em tudo, perfeito! Eu criaria filhos para a glória de Deus, eu tinha como cumprir o meu propósito!

No meio do caminho, nem tudo sai como previsto, o plano de ação nem sempre funciona, a gente precisa rever e rever e rever.

Não dá para dormir hoje com filhos recém-nascidos e acordar no dia seguinte com eles crescidos e o trabalho feito. Aliás, criar filhos dá trabalho, muito. Os meus tem 03 e 07 anos e as vezes parece que eu vivi uma vida inteira sendo mãe. As vezes me sinto cansada, parece um processo que eu nunca verei o resultado, afinal, meus filhos ainda precisariam crescer para que eu alcançasse o objetivo. Chego a dizer ao meu esposo que me sinto frustrada por que parece ser um trabalho em vão.

A maternidade me revelou para mim mesma, despertou sentimentos maravilhosos, que só pela graça de Deus posso senti-los, o amor pelos meus filhos, o instinto de cuidado e proteção, a certeza de que alimentá-los era o melhor a fazer, mesmo nas madrugadas frias, sozinha, com sono. Aprendi que ensiná-los é meu dever e direito e que isso é sensacional, é uma troca muito gratificante. Mas não é só isso, a maternidade também trouxe à tona o pior de mim.

No dia a dia, enquanto sou mãe, não posso fingir, tenho que lidar com o meu egoísmo, impaciência, orgulho, dureza de coração, vaidade, inveja, medo, falta de misericórdia, arrogância, ira… poderia fazer uma lista imensa com todos os frutos da carne que meu velho homem é capaz de produzir se não for podado pelo Santo Espírito de Deus.

E foi aí, no processo, no durante, na caminhada, que eu me deparei com um versículo tão conhecido: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Coríntios 10.31) Sem novidade, sempre esteve ali, eu sabia de cor e corroborava para a clareza do meu fim principal, glorificar a Deus. No termo “outra qualquer coisa” cabe criar filhos, sem dúvida.

Pobre de mim! Coitados dos meus meninos! Que cômodo para mim, transferir para eles a minha responsabilidade de glorificar ao Senhor.

Pela infinita bondade de Deus, meus olhos foram abertos para a expressão “quer comais quer bebais” e não há nada de grandioso ou relevante nisso, são as necessidades mais básicas para a sobrevivência do ser humano. E aí, tudo ficou lúcido, porque assim é a Palavra de Deus, lúcida, enquanto sobrevivo, devo glorificar ao Senhor.

Mais fácil agora? Não! Muito mais difícil, porque preciso lidar comigo mesma, e encarar quem eu sou e com todos aqueles sentimentos ruins que se intensificaram com a maternidade. Glorifico a Deus, criando meus filhos, não por aquilo que eles virão a ser, mas sim no processo. É gerúndio, criando, fazendo, vivendo, comendo, bebendo ou fazendo qualquer outra coisa.

E se eu afirmo, pela graça de Deus, que já estou crucificada com Cristo e que não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim, segundo Gálatas 2.20, em todo momento, preciso fazer morrer meu velho homem. A colocação de Martinho Lutero se encaixa perfeitamente, “pensei que o velho homem tinha morrido nas águas do batismo, mas descobri que o infeliz sabe nadar.”

Crio filhos para a glória de Deus, quando, por Sua infinita misericórdia, faço morrer a mim mesma e me assemelho mais e mais com Cristo, quando demonstro amor e misericórdia para com meus meninos e consigo perdoá-los pela desobediência quantas vezes forem necessárias, quando os disciplino em amor, engolindo a minha ira e o meu ego ferido e ensino a eles que a desobediência deles é pecado e, muito mais do que me causar trabalho e me envergonhar, fere a santidade de Deus. Quando sou paciente e bondosa e os ensino, tantas vezes quantas forem necessárias e estou pronta para acolhe-los quando caem, assim como o Senhor tem feito comigo a vida toda. Quando os amo, como a mim mesma e providencio, de bom grado e sem murmurações, tudo aquilo que é necessário para seu sustento e sobrevivência. Quando abro mão de minhas vontades e de fazer o que eu quero e gostaria, mas gasto meu tempo pregando o evangelho a eles, ensinando-os a amarem e a temerem ao Senhor, plantando frutos para a eternidade.

Glorifico a Deus, por meio da maternidade, sendo verdadeiramente cristã, no dia a dia, na rotina simples do meu lar, sendo mestra do bem, como em Tito 2.4, sendo prudente, boa dona de casa, amando meu marido e filhos, para que a Palavra de Deus não seja difamada.

Glorifico a Deus quando confio em Sua soberania, entregando a vida dos meus filhos a Ele, confiando que Ele pode alcança-los com sua graça e misericórdia e regenerar seus pequenos corações.

Glorifico a Deus, como diz John Piper, quando me satisfaço plenamente no Senhor e meus filhos veem isso em mim e aprendem, com meu testemunho a também se contentarem Nele.

Pela graça de Deus pude gerar filhos e hoje, vejo com clareza, como Deus tem usado a maternidade para moldar o meu caráter à imagem de Cristo. As vezes dói, porque preciso é cortar, lixar, aparar, mas fico com as palavras de Jesus e tenho bom ânimo (João 16.33), eu sei que aquele que começou a boa obra é fiel e justo para completa-la até o dia de Cristo (Filipenses 1.6), eu confio que o meu trabalho não é vão no Senhor (1 Coríntios 15.58), eu prossigo fazendo o bem, ainda que o velho homem não queira, sabendo que no tempo oportuno colherei, se não desanimar (Gálatas 6.9)

Minha oração, querido leitor, é para que Deus continue sendo bom e misericordioso, nos ajudando na caminhada, para que por meio da maternidade e da paternidade possamos honrar e glorificar o Seu nome.

 

 Maira Moraes

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